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Professor Sibertin-Blanc In memoriam

Francês de nacionalidade, Antoine Sibertin-Blanc foi o mais português dos nossos organistas. Nascido em Paris em 1930, formou-se na Escola César Franck sob a orientação de Édouard Souberbielle (Órgão e Improvisação), estudando também com Maurice Duruflé no Conservatório Nacional Superior da capital francesa. Depois de ocupar vários cargos de organista em Paris e no Luxemburgo, aceitou o convite de Júlia d’Almendra – fundadora e diretora do Centro de Estudos Gregorianos – para se radicar em Portugal e assumir o cargo de professor de Órgão nesta escola superior de música sacra.

Domingos Peixoto
19 Nov 2012

Exerceu essas funções desde janeiro de 1961 até 2000, ano da sua jubilação: primeiro, no Centro de Estudos Gregorianos (convertido no Instituto Gregoriano de Lisboa em 1976) e, após a reforma do ensino artístico em 1983, na Escola Superior de Música de Lisboa, onde foi integrado o curso superior de Órgão do Instituto Gregoriano.

Extraordinário intérprete e improvisador, Sibertin-Blanc desenvolveu uma incansável atividade em Portugal e no estrangeiro; uma palavra de destaque para a sua participação na audição da obra integral para órgão de J. S. Bach, com que foi assinalada a construção do grande órgão Flentrop da Sé de Lisboa, instrumento de que foi titular desde a sua inauguração (1965). A música dos nossos compositores mereceu–lhe sempre a melhor atenção, não tivesse sido o seu primeiro concerto em Portugal realizado no emblemático instrumento histórico de S. Vicente-de-Fora. Além de gravar obras dos nossos clássicos para diversas etiquetas discográficas, ao nosso país dedicou uma das suas composições – a Suite portugaise – estreada na Sé de Lisboa em 28 de março de 1976.

A criação e desenvolvimento da classe de Órgão do Centro de Estudos Gregorianos operou uma autêntica revolução no meio organístico português, graças a uma presença muita ativa em Lisboa de eminentes organistas franceses. Apesar do florescimento da classe de Órgão do Conservatório Nacional na década de 50, foi no Centro que se foi concentrando a esmagadora maioria dos alunos, futuros professores que iriam ocupar os postos de ensino, bem como dos elementos do clero que tinham ou viriam a ter lugares de responsabilidade nas suas dioceses ou comunidades religiosas. No primeiro caso, um lugar especial para o saudoso J. Simões da Hora que, ao assumir a regência da classe de Órgão no Conservatório em 1976, deu um passo decisivo na afirmação do repertório organístico português. Ocupam, igualmente, um lugar de destaque na vida organística portuguesa, entre outros, António
Duarte, João Pedro Oliveira, João Vaz, Rui Paiva (discípulo de J. Simões da Hora) e João Paulo Janeiro. No segundo caso, citemos, a título de exemplo, os PP. António Cartageno (Beja), Joaquim Lavajo (Évora), José Joaquim Pinto Geada (Guarda), Gruppo Sérgio (Coimbra) e Mário Silva (OFM), e António de Sousa Fernandes (Braga) e João Salvador Morais (Lisboa), já falecidos.
O curso de Órgão regido pelo prof. Sibertin-Blanc transitou para a Escola Superior de Música de Lisboa e foi o único de nível superior em Portugal até à criação dos cursos de licenciatura nas Universidades de Aveiro e Évora e na Universidade Católica, já na última década do séc. XX.  Contemplando o panorama organístico português, deparamo-
-nos com uma frondosa árvore genealógica deste curso superior de Órgão, cuja sombra cobre Portugal de lés-a-lés com sucessivas gerações de organistas. Graças à irradiação da ação pedagógica da escola e da inexcedível dedicação aos alunos, o prof. Sibertin-Blanc foi construindo, ao longo de 40 anos, a escola portuguesa de Órgão.

Portugal soube manifestar o reconhecimento a este gigante da nossa cultura organística na 2.ª metade do séc. XX: em 1999 Antoine Sibertin-Blanc foi agraciado pelo Presidente da República com a comenda da Ordem de Sant´Iago da Espada, em cerimónia realizada em Aveiro, no dia de Portugal e das Comunidades.

Os organistas portugueses estão de luto com a partida do seu Mestre sábio e dedicado, amigo atento de todas as horas. Mas fica-lhes o conforto, a  certeza e o alento para prosseguirem o caminho aberto pelo labor persistente e infatigável de um homem que, pela sua competência e grandeza de alma, lhes provou que é possível melhorar o panorama organístico em Portugal.




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