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E se saíssemos do euro?

Há dez anos que usamos o euro como moeda. Esta moeda europeia veio encarecer a vida dos portugueses por um fenómeno muito simples de explicar: pouca gente gasta um euro com a certeza de que está a gastar duzentos escudos. Um euro é uma moeda, ora em Portugal, as moedas eram os valores de trocos. As grandes despesas eram pagas em notas. A geração do euro passou a dizer à geração do escudo: é barato, só custa um euro. Numa mentalização mais rápida do que se contava, a geração do escudo passou a gastar um euro como se tratasse de um escudo.

Paulo Fafe
19 Nov 2012

A moeda única deu-nos a ilusão de que éramos europeus iguais aos alemães, por exemplo. Tivemos um nível de vida semelhante a eles só que a nossa economia não se lhe assemelhava, nem se assemelha. Foi, então, o endividamento progressivo. Os bens essenciais tornaram-se caríssimos. Há dez anos, Portugal não estava em crise,  foi preciso selecionar o investimento estrangeiro, o desemprego era na casa dos 5% , não se falava em austeridade, o FMI foi um credor de curto prazo.  Via-se na moeda única um meio expedito de ir a Espanha sem ter de trocar por pesetas, a França sem ter de cambiar por francos ou à Alemanha sem levar consigo os valorizados marcos, e assim para a lira, etc. etc. O euro tornou-se, assim uma moeda consistente, fiá-vel e acima de tudo prestável em toda a EU.  Há dez anos um euro valia duzentos escudos. Se saíssemos agora do euro, o novo escudo valeria muito menos do que valia há dez anos porque empobrecemos substancialmente: o produto nacional é menor, as empresas estrangeiras foram para outras paragens, muitas nacionais fecharam ou deslocaram-se para outros paí-ses, o desemprego está na casa dos 16%, as agências financeiras colocam Portugal na situação de “lixo”,  o grau de confiança nacional e internacional é muito baixo.  Há medo do futuro, em Portugal, medo de bancarrota, medo do dia-
-a-dia, medo pela perda de  emprego, medo das políticas, geral e setoriais, medo de perder a casa. Com este cenário, que é real, que paridade teria o novo escudo, caso saíssemos do euro? Ninguém saberá dizer com certeza absoluta. Imaginemos que o novo escudo valeria metade do escudo de há dez anos. Se assim fosse todos os produtos importados, matérias-primas, combustíveis, automóveis, tudo o que viesse lá de fora passaria a custar o dobro. Um exemplo, entre muitos que poderíamos dar: um litro de gasolina que hoje custa 1,5 euros (300$00) passaria a custar 3 euros(600$00). Os salários até poderiam ser os mesmos, 500 euros valeriam 100.000$00, 1500 euros, 300.000$00 , só que lá para fora passariam a valer metade. Os combustíveis seriam pagos em euros, não em escudos.  Com os combustíveis a este preço era inevitável as subidas nos transportes públicos, particulares e comerciais que desencadearia, naturalmente, uma subida de preços generalizada. Os bens importados ficariam para os ricos. Mas mesmo os produtos nacionais, os dos campos, cujo regresso será inevitável, quer os dos mar, onde teremos de voltar, quer os da  indústria que teremos de incrementar, seriam encarecidos pela subida dos combustíveis, a não ser que o governo subsidiasse os combustíveis para a agricultura e  transportes de mercadorias. Se estes não pagarem, alguém vai ter de pagar por eles; o dinheiro não aparece por geração espontânea.  É evidente que os produtos nacionais encontrariam mais fácil colocação no estrangeiro, resultado da mão de obra ser mais barata; penso, no entanto, que  nunca tão baratos que atraíssem os grandes investimentos estrangeiros que se movem mais pela pujança e dinâmica das economias dos países onde investem e pelas leis que as regeme não pela mão de obra barata porque a não tem.




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