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In numero veritas

“Passaram pelo meu nome e eu era um número”. É assim, com este verso, que começa um poema outrora muito conhecido de David Mourão Ferreira, intitulado “Aviso de mobilização”. Tempos já passados, dir-se-ia, esses em que as pessoas eram números mobilizados para serem “carne para canhão”, para usar a expressão certa. Tempos regressados, no entanto. Embora para outras guerras, as pessoas parecem ser, de novo, apenas números.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
18 Nov 2012

No Livro do Apocalipse, a Besta é designada por 666, recorda o economista Tomas Sedlacek, um antigo conselheiro do presidente checo Vaclav Havel, numa entrevista que ele e o matemático canadiano David Orrell concederam, em 2011, ao jornalista Roman Chlupatym, agora publicada em O crepúsculo do homo economicus, um livro que chegará às livrarias francesas na semana que começa e de que se pode ler um extracto na revista Books deste mês. Afirmando que, durante sucessivas gerações, os teólogos e os místicos tentaram perceber qual o sentido que poderia ter o número da besta, Tomas Sedlacek julga-se apto a apresentar uma resposta para tão prolongada indagação. O sentido, considera o economista, encontra-se, precisamente, na circunstância de a besta ser um número. “E é provavelmente por esta razão que ela suscita medo, porque se trata de um ser que toma a forma de um número”.

Os números têm abundantes cultores. Tomas Sedlacek cita um exemplo literário, bastante eloquente, o de uma saga de ficção científica, Guia do viajante galáctico, de Douglas Adams, em que “a ‘Grande Questão sobre o sentido da Vida, do Universo e do Resto’ tem por resposta: 42”. Ser 42 importa pouco, diz o economista. O que é singular é ser um número. A uma pergunta espiritual, uma resposta aritmética. É por isso que a história de Guia do viajante galáctico “é irónica”.

“Concedemos uma importância quase religiosa aos números”, havia dito, num momento anterior da conversa, David Orrell. “Eu suprimiria o quase”, apressou-se a acrescentar Tomas Sedlacek, considerando que, de facto, atribuímos uma importância religiosa a números que, aliás, sabemos serem falíveis. E isto, acrescenta, depois de toda a gente se ter enganado nas previsões de todos os indicadores. “Os economistas não conseguiram tirar, desses indicadores fetiches, conclusões justas”.

Tomas Sedlacek recorre a novo exemplo bíblico, a morte de Abel por Caim. Em hebreu antigo, nota o economista, Caim significa ferreiro e Abel significa vento. “Desde então, o duro (hard) prevalece sobre o macio (soft). O poder da publicidade – e tudo o que pode ser considerado como duro – triunfa sobre a intuição de que não deveríamos destruir o nosso ambiente, estragar a paisagem, aniquilar o prazer do ar puro”. Para Sedlacek, a batalha é desigual pois traduzir alguma coisa em números, é torná-la dura. “É muito difícil traduzir em números o que é macio. O macio perde sempre a batalha mesmo antes de ela verdadeiramente começar”.

Para Tomas Sedlacek e David Orrell é lamentável que os economistas, as instituições internacionais, os políticos e os media mantenham uma tão arreigada quanto absurda reverência pelas estatísticas. “Fazendo-o, eles praticam uma forma de pensamento mágico que não cessa de nos influenciar desde a Antiguidade: in numero veritas”. Mas “os efeitos perversos desta crença são lamentáveis”. E o tempo não tem feito outra coisa se não demonstrá-lo.




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