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Um olhar em redor

Observando como que uma trégua em relação a esta crise que nos avassala a todos, ou seja, deixando por momentos de bater na mesma e já estafada tecla acerca da grave situação a que chegou este nosso pobre país, que a todos nos atinge embora muito mais a uns do que a outros, pressiono desta feita outras teclas, as desta minha já vetusta (Rover 5000), confidente fiel dos pensamentos que lhe transmito há longos anos, aliviando assim esta enorme tensão que nos assola, sem que se vislumbre, longe disso, “uma luz ao fundo do túnel” conforme soe dizer-se.

Joaquim Serafim Rodrigues
16 Nov 2012

E, a propósito da propalada homenagem prestada recentemente ao escritor António Lobo Antunes em Penafiel, encontro-me naquela situação deveras desconfortável em que ele se viu, certa vez, sem ideias para escrever a sua crónica habitual, a publicar numa conhecida revista.
Contudo, e à custa de muito esforço, o conhecido autor de “Memória de Elefante”, “Conhecimento do Inferno”, “Explicação dos Pássaros” e “Fado Alexandrino”, obras de que muito gostei mas que, para mim, se tornou verdadeiramente intragável a partir de certa altura, com livros maçudos, densos, sem uma urdidura atraente, temática dispersa, confusa, incongruente, dificilmente assimilável como se ele, autor, escrevesse para si próprio, alheio ao mundo envolvente e, quem sabe, mercê também de uma certa deformação profissional, psiquiatra que foi durante longos anos num hospital, o que transparece em romances como “As Naus”, “’Tratado das Paixões da Alma”, “Não entres tão depressa Nessa Noite Escura” e outros, que estopada, meu Deus, sobressaindo neles o uso e abuso de uma linguagem solta, desbragada (Eça, Aquilino e sobretudo Camilo, para só falar destes, diziam e chamavam às pessoas as mesmas coisas sem recorrerem ao palavrão grosso e obsceno que Lobo Antunes utilizava agora com frequência) contudo, escrevia eu, este nosso eterno candidato ao Prémio Nobel de Literatura, lá foi conseguindo compor o seu artigo e, entre várias outras coisas relatou as suas aventuras com dentistas em Angola, onde um soldado lhe arrancou um dente a sangue-frio. O dente saiu-lhe de facto mas, com ele, saiu-lhe também a caveira pela boca fora. Toda a caveira, afiança Lobo Antunes.
Aludindo por fim a um tal senhor Joaquim que vendia esqueletos aos estudantes de medicina, trazidos do cemitério dos Prazeres, remata o seu trabalho descrevendo o orgulho deste homem pela doença de que sofria o seu filho, a doença de Parkinson, apresentando-o aos amigos com vaidade: O meu rapaz, par-kinsonista!
Assim se desembaraçou António Lobo Antunes da crónica que se obrigava a escrever para a tal revista…
Então, e quanto à minha? Sim, aquela que não consegui, até ao momento, produzir com destino ao “Diário do Minho”? Pois é, caros amigos, só agora dei comigo arvorado em crítico literário, mas olhem, aproveito o ensejo para lhes dizer que, embora respeitando as opiniões alheias, assim como admiro a sinceridade, a rectidão de carácter, a inteligência sem alardes descabidos de cada um, também detesto os vaidosos, os louvaminheiros, os aduladores que existem por todo o lado. Melífluos, ziguezagueantes, falsos como Judas. Todo o cuidado com eles é pouco, visto não olharem a meios, se puderem, para atingirem os seus inconfessáveis fins!
Por hoje, disse.




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