Fotografia:
Outro ponto de vista…

A narrativa politicamente correta de que a dita “revolução dos cravos” foi uma festa, sem custos, e muitas outras que nos pretendem demonstrar a facilidade com que hoje se afirma uma verdade e amanhã o seu contrário, sejam os hossanas à integração europeia e a sua negação, quando chega o momento da verdade, recolhem ao inevitável cliché que nada de realmente essencial muda em Portugal e de que o “mundo português”, na sua mentalidade, educação e cultura, permanecem tal como eram na sua essência.

Acácio de Brito
16 Nov 2012

Apesar da natureza endémica da nossa crise, que extravasa em muito a sua dimensão instrumental, o défice orçamental e o processo de ajustamento, necessário e obrigatório, não por culpa dos outros, mas para a nossa própria sobrevivência enquanto povo e Nação valente e imortal, o que deve contar é a natureza autêntica das coisas.
Sem nenhum prurido, nem vontade de desenvolver teoria abstrata, atenho-me a propor uma passagem do vivido quotidiano a um pensado, racionalizável.
Vamos contar uma gesta que ilustra o sentido do afirmado.
Como todos os contos, comecemos pelo “era uma vez, aconteceu…”
Uma mulher determinada, mãe de quatro filhos.
Durante 11 idílicos anos, até à morte de seu marido tudo corria de feição. Vida equilibrada, aconchego económico e relevante papel social na comunidade de que era parte.
Com a morte do marido, assume o papel de “pater familiaes”, mas eis senão quando, em resultado da dita “revolução dos cravos” tudo se desmorona. Afinal a festa teve custos e, muitos nem sequer são mensuráveis!
Perda de património, construído com sacrifício, muito trabalho e dedicação e, um mundo novo que se vislumbra do alto do abismo.
Regresso ao local de partida, a este retângulo à beira-mar plantado.
Se na partida para a África então portuguesa, coincidindo o momento de embarque com a visita presidencial de Craveiro Lopes, leva apenas a mala com os seus haveres, mas muita vontade de singrar e vencer, o regresso, é feito sem malas do seu património, mas com sua riqueza única, os seus quatro petizes.
Crianças e adolescentes veem-se de um momento para o outro na grande capital do até então Império, completamente entregues ao sossego e tranquilidade aparente da Mãe.
Chegou o momento da penúria, da austeridade!
Passagem de casa própria a morada arrendada… Registe-se que o vencimento de uma professora primária era na altura cerca de 13 contos líquidos. O aluguer 7 mil e quinhentos escudos!
Como viver? De que viver?
A solução mais fácil seria empregar os dois adolescentes, recorrer à mendicância estatal ou outra, mas a opção não foi considerada!
Com trabalho, disciplina orçamental, não “merkelina” ou “gaspariana”, mas com o sentido de um devir que anuncia melhores tempos a aposta foi tida, no que tem verdadeiro sentido:
A educação e valorização cultural dos seus filhos.
Sem paixonetas, mais ou menos “guterristas”, ou de apanágio das “ciências do oculto”, mas com a perenidade e autenticidade do verdadeiro saber.
Com dificuldades? Muitas!
Com sacrifícios? Imensos!
Não obstante, o caminho cheio de pedras e escolhos foi cumprido.
Não havia o calor das praias do Algarve, mas pedagogicamente nos era anunciado as virtudes do “iodo das praias nortenhas”.
Não havia “play-station”, nem
“Ipods”, mas acontecia o exercício lúdico do questionar permanente.
Comer fora? Não fazia parte do léxico familiar.
Ternura, muita! O essencial, sempre!
Com responsabilidade ficamos todos a saber, sem precisar na altura de frequentar qualquer escola de gestão que nada é grátis, tudo com trabalho se conquista.
Estes os inícios e desenvolvimentos de uma história, da qual a protagonista, eu gostaria de ter nos comandos do meu País.
Um País governa-se como uma Família.
Com sentido de um futuro que se quer melhor, que se prepara no presente sem perder o olhar no devir que não tarda!
Finalmente, os petizes que apenas contaram com o apoio de uma Mãe em momento de grande incerteza, hoje são, uma docente universitária em terras de Vera Cruz, um advogado, um diretor bancário e um inspetor da Educação e Ciência em terras lusitanas.
Que deram netos e netas que percorrem os seus caminhos em
áreas tão distintas, mas tão próximas que vão desde as ciências farmacêuticas, às jurídicas, às artes e, até às engenharias.
Foi obra!
Apesar da austeridade e rigor imenso construiu-se uma possibilidade de vida melhor.
A propósito, qualquer semelhança com a realidade, não é pura coincidência, aconteceu e, a Mãe é a minha.
Precisamos da perspicácia das Mães e donas-de-casa no governo do País. Obrigado.




Notícias relacionadas


Scroll Up