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Afinal, que mal fez Isabel Jonet?

1A discordância é um exercício meritório, um direito irrebatível e pode ser até uma obrigação indeclinável. Mas ela não pode contender com o reconhecimento da realidade. Exemplo: podemos não gostar do branco, mas não podemos deixar de reconhecer que o branco é branco.
2. Não é crime discordar do que Isabel Jonet diz. Mas é impossível não reconhecer o que Isabel Jonet faz.
Ela pode não ter dito muito bem. Mas tem feito muito e bem. E isso é o que importa. E é o que mais depõe em seu favor.

João António Pinheiro Teixeira
15 Nov 2012

3. E, já agora, quanto ao que ela disse, nem sequer vejo razão para tanta celeuma.
Tudo se resume a isto: temos de aprender a viver na adversidade. Já S. Paulo o disse aos filipenses (4, 12): «Sei viver na riqueza e sei viver na pobreza».
Mas não é isso que já estamos a fazer? Não sentimos que estamos a aprender a viver nesta situação difícil?
4. E, depois, é assim tão mau fazer caridade? Que seria de tantos sem a caridade de tantos?
É claro que a caridade não pode ser uma forma de humilhar os outros, de mostrar superioridade sobre a vida dos outros.
É verdade que a caridade não dispensa a justiça. E, acima de tudo, é importante perceber que a caridade não pode ser o pretexto para que tudo continue na mesma. Mas, em si mesma, a caridade é uma forma de amor.
5. Aliás, um dos efeitos mais nefastos que esta crise pode revelar é o que já está a acontecer: colocar as vítimas da crise umas contra as outras.
É uma armadilha que alguém, astutamente, congeminou e na qual, pouco subtilmente, estamos a cair.
As críticas a Isabel Jonet e aos que recebem alguns apoios sociais relevam desta cedência.
6. Volto a insistir: a crítica é legítima, mas, nesta altura, a unidade é (mais) necessária.
Este é o momento de unir esforços e juntar vozes. Este não é o tempo de desperdiçar energias.
O alvo dos pobres não podem ser os outros pobres. Nem, muito menos, aqueles que estão ao lado dos mais pobres.
7. A própria Igreja, que neste campo já faz muito, pode (e deve) fazer muito mais. Pode (e deve) intervir, falar, anunciar e denunciar.
A ação é importante, mas, nesta fase, a palavra pode ser decisiva.
8. É preciso que a Igreja não pareça «eclesiocentrada» nem apareça «eclesio-sentada». A Igreja tem de estar sempre «teocentrada» e «antropocentrada», centrada em Deus e no Homem.
Ela tem de estar cada vez mais ao lado dos pobres e dos que estão, aceleradamente, a empobrecer. É para isso que ela está no mundo. Foi para isso que Jesus Cristo veio à terra!
9. A crise desvela o que, muitas vezes, tende a estar velado: nem tudo é linear. O aumento da receita não tem de vir apenas (nem principalmente) dos impostos. E, mesmo quanto a estes, não é curial que sejam sempre os mesmos a sofrer o peso da factura.
O pensamento linear, segundo o qual não há alternativas, não traz grandes benefícios. Já está gasto, falido.
10. Temos de reaprender o pensamento complexo. Temos de reaprender a ligar os conhecimentos, a ligar os contributos e (sobretudo) a ligar as pessoas.
Era bom que houvesse muita gente como Isabel Jonet. E, graças a Deus, até há!




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