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É Agora!

A visita da chanceler alemã Angela Merkel a Portugal foi revestida de um aparato mediático de grandes proporções. Desde o aparato policial e dispositivo de segurança montado, passando pelos jornalistas a apelidarem-na de “a mulher mais poderosa do mundo”, todo este frenesi suscitou-me alguma preocupação.

Ramiro Brito
14 Nov 2012

Ora, eu sei que a crise aperta, que estamos todos nervosos e que as mais altas instâncias internacionais andam completamente obcecadas com défices e dívidas e outras iguarias do género, mas como diria um personagem de novela, brilhantemente interpretada por António Fagundes, há que ter “muita calma nessa hora”. Claro que contra factos não há argumentos e a Alemanha é o país Europeu mais próspero, com a economia mais forte e equilibrada e uma das poucas em condições de financiar os défices e dívidas de outros Estados Europeus. Esta é uma verdade irrefutável e também é incontornável o facto de esta situação lhe dar um papel de liderança difícil de rebater, face aos outros países da Europa.
A realidade é esta…não é como gostaríamos mas é o que é e agora temos de lidar com ela.
O que me preocupou nesta visita da chanceler foi precisamente a forma curvada e submissa com que recebemos uma líder europeia, o aparato e aquela relação de meninos mal comportados que estavam à espera que nos viessem aqui dizer que agora sim somos bem comportados.
O problema porém, não está na Sra. Merkel…o problema está no modelo europeu e no próprio sistema que é frágil, imperfeito e difícil de gerir. A Sra. Merkel defende os interesses do seu país, porque essa é a realidade… a solidariedade europeia termina e esbarra nos interesses particulares de cada nação. Já noutras ocasiões me referi a este modelo gasto e sem grande organização que adotamos para a Europa. Esta mistura entre soberanias nacionais e uma autoridade europeia comum que, na prática é liderada, naturalmente, pelos mais fortes. Este federalismo encapotado que quer recolher o melhor de dois mundos é claramente um modelo esgotado. Aliás a grande questão está, precisamente, em sabermos se este é sequer um modelo ou apenas uma experiência porque ele viveu de um balão de oxigénio que foi criado à nascença de forma a que parecêssemos todos iguais, de maneira a criar a ilusão de um Europa com iguais oportunidades, iguais recursos em que todos teriam o mesmo ponto de partida.
A questão é que isto não é verdade. A verdade é que quer do ponto de vista económico, como do ponto de vista social e político a Europa não tem uma identidade. As soberanias nacionais dos paí-ses que a compõe, os recursos e a parcial autonomia económica de que as mesmas são dotadas, fazem com que sejamos diferentes nas opções, nas ações e, consecutivamente, nos rumos que adotamos. Como se governa o que quer que seja quando duas dezenas de cabeças pensam autonomamente, decidem de forma soberana e depois pretendem que essas decisões venham a convergir num desígnio comum? Como se governa quando durante décadas usamos as verbas que nos foram adjudicadas à nossa maneira, a Grécia à deles, a Espanha igualmente e agora vem dizer-nos que foi tudo mal feito? Não é possível…não é exequível…é uma utopia.
Volto a dizer, ou somos federalistas ou não somos…ou funcionamos num sistema de governo central e com uma soberania europeia ou não o fazemos. Saber hoje recriar não só o Estado social em Portugal, mas também o modelo Europeu com opções corajosas e acima de tudo conscientes é o mínimo que podemos fazer para não hipotecarmos as gerações futuras…mais do que já estão.
As crises podem ser janelas de oportunidades, não só nos negócios mas também na definição do futuro que queremos, usando todos os erros que cometemos como modelo de aprendizagem…mas quando digo nós, não me refiro aos portugueses, refiro-me aos europeus.
Esta é a hora de colocarmos a mão na consciência, refletirmos e uma vez que seja pensarmos no amanhã… com coragem e não com cobardia nem hipocrisia. Esta é a hora de se criar uma consciência política e trabalhar para o país e não para eleições.




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