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Cautela!

Não vou falar de jogo nem de lotaria. Antes pelo contrário. A palavra não tem a ver, no texto que se segue, nem com sorte nem com azar. Tem, antes, a ver com o comportamento que prevê mais atenção e precaução nas nossas decisões como forma de evitar ser despojado do que se tem e, às vezes, até do que se não tem. Falarei de justiça e de equidade. Falarei também de opções de um país.

Luís Martins
13 Nov 2012

Os meus ouvidos e certamente os de muitos dos leitores desta crónica escutaram, bem fundo, aquele “acautelai-vos” do Evangelho de São Marcos do último domingo. Um imperativo muito desinquietante e desafiante, foi assim que o senti. É que nos distraímos muitas vezes, não apenas das coisas do espírito, mas também das coisas da terra, daquelas que tratam da política, dos programas e das promessas eleitorais, dos eleitos, da prática governativa. Precisamos de estar atentos porque estão por perto, por aqui e por ali, em todo o lado, apresentados com as mais diversas indumentárias, os que nos devoram os pertences, parcos que sejam, mas nossos, que conseguimos com muito esforço e trabalho. Que, com sorte, inteligência e ousadia nos podem tornar mais ricos, mas quase sempre nos devoram o pouco que temos.
As coisas da religião podem e devem, sempre que possível, ser aplicadas às da cidadania. E há muitos campos em que isso se proporciona. Nos tempos que correm não faltam referências e constatações à pobreza que cresce. Deparamo-nos com exemplos concretos e ouvimos falar da pobreza encoberta, nem sempre perceptível a quem não experimenta no dia a dia o apoio a uma franja cada vez maior da população que vive ou começa a viver mal face à crise que nos envolve. Tem-se falado já que, no nosso país, os pobres serão já cerca de três milhões. O Estado tem aqui responsabilidades como nenhuma outra instituição. É mesmo o primeiro responsável. Desde logo, porque é o chapéu de toda a comunidade. Depois, porque existe para proteger os cidadãos, todos, com justiça e equidade, o mesmo é dizer, que deve começar o trabalho em primeiro lugar pelos pobres. Mas, quase sempre, olha esta camada da população como despesa, como problema que torna insustentável a despesa pública. Sabemos que não é assim, que a insustentabilidade da dívida se deve a interesses que não são reclamados pelos mais humildes, antes pelos poderosos.
Ninguém faz por ser pobre. Ao Estado cumpre ajudar todos a sair dessa situação, não o contrário. Quando a pobreza aumenta, não se pode ver nisso uma vontade deliberada de cada um dos que se encontram nessa situação para viver nela. O Estado deve amparar, proteger, disponibilizar meios (não apenas de subsistência) para que todos tenham oportunidade para atingir um patamar de bem-estar digno e justo. Se à primeira dificuldade, o Estado se lembra dos apoios que presta aos mais humildes, esquecendo-se dos que concede a alguns outros, em somas elevadíssimas, nesse caso está simplesmente a “devorar” os primeiros, exatamente aqueles que mais precisam e que não têm outros recursos nem outras opções de sobrevivência.
Nos últimos dias voltou a ser necessário reler a Economia de Paul Samuelson ou, pelo menos, a recordar os exemplos do autor para explicar alguns fundamentos da economia. Será que estão amea-çadas, por causa da dívida, do Memorando de Entendimento ou por ordem de alguma instituição internacional parte das funções sociais do Estado? Tudo vai depender da resposta que se der a algumas perguntas simples. Queremos submarinos ou ter dinheiro para apoiar os desempregados? É preciso decidir isso. É preciso responder à pergunta com muita clareza. Antes de evoluir no meu comentário de hoje, digo já o que penso: não me revejo num Estado que prefere os submarinos.
Já constatamos que o dinheiro não dá para tudo. Na nossa vida como no Estado. Temos de tomar opções. Mas, com a devida cautela, para não nos arrependermos mais tarde. Tanto faz que quem compre ou queira comprar os submarinos seja este ou aquele. O que nos diz a teoria é que qualquer país deve viver sobre a curva das suas possibilidades, nem acima, nem abaixo. Viver acima já estamos fartos de saber o que isso é e não é recomendável, a qualquer título, experimentar de novo. Mas entre as alternativas e opções disponíveis, não caiamos, para só dar um exemplo, na tentação de preferir mais canhões e aviões militares do que estruturas produtivas. Os primeiros podem servir para defender o território nacional, uma função de Estado, mas as segundas são as que dão pão e emprego e criam valor na economia nacional. Por mais razões que assistam aos militares, por mais consideração que se tenha dos que nos devolveram a democracia, continuo a preferir que se apoiem as empresas e as instituições que façam criar postos de trabalho e promovam o crescimento da economia. Num caso, como noutro, claro está, ponderando os apoios com o equilíbrio orçamental. Sempre com muita cautela.




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