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Refundar

É isso mesmo, vou fazer o que o sr. primeiro-ministro de Portugal sugeriu há dias: vou refundar os meus princípios, os mesmos que há largas décadas uso como fundamento das minhas atitudes e que me foram refundados. Vou deixar de ser escravo da minha palavra e numa refundação vou poder dizer hoje uma coisa e amanhã outra, sem sentimentos de culpa ou angústias de respeitabilidade; vou deixar de ter pena dos mais velhos, ampará-los em casa até que a morte os leve e, numa refundação de amor filial, vou metê-los num asilo ou numa casa para a terceira idade;

Paulo Fafe
12 Nov 2012

vou virar ideologicamente a casaca, umas vezes serei por estes mas amanhã, se outros me prometerem ascensão política com os evidentes benefícios materiais, vou aproveitar e passo a pertencer ao partido do videirinha; vou vestir do bom e do melhor, vou passear para as melhores estâncias turísticas, vou mudar de automóvel e comprar outra habitação, refundando o meu conceito de compra: é que fui habituado a comprar a dinheiro, agora, em sede desta refundação, vou comprar a crédito e se o não puder pagar abro falência e continuo numa boa; vou incentivar os filhos a faltar ao respeito aos professores porque se eu passo o tempo a dizer mal deles e a desculpar-lhes as suas cabulices e má educação, como posso exigir deles outro comportamento; vou pagar a um bom especialista em fiscalidade para me ensinar a fugir aos impostos: que importa que o vizinho pague por mim? Vou deixar de olhar para os mais velhos com respeito e veneração e, numa refundação de mim mesmo, vou olhá-los como um estorvo e como alguém que nunca mais morre; vou refundar-me para me habituar a ver os polícias sentados às suas secretárias e nas manifestações e nunca vigilantes nas ruas e praças da minha cidade; vou refundar-me ao assumir que os tribunais se especializaram em prescrições; vou juntar-me aos profissionais das vaias a políticos e governantes porque numa refundação de respeito que todos merecem, me dizem que isso é um direito à indignação malcriada; vou achar uma obra de arte muitas das pichagens que borram as paredes caiadas de fresco e sujam os monumentos nacionais e locais. São muitos os princípios que vão fazer de mim uma pessoa recauchutada. Neste mar alteroso  de viragens  comportamentais e sentimentos afins, há uma coisa parece não estar incluída, mas está implícita como todas as consequências que dela derivam. Falo da moral social que é um conceito juiz, isto é, que absolve ou condena os comportamentos dos cidadãos por que se rege essa mesma sociedade. Mas entrei num paradoxo que é um parafuso que já perdeu a rosca:  a sociedade vai ser refundada?  A sociedade que somos nós todos assume esta refundação?  Ora, se eu e tu, e todos os ouros, nos refundarmos nos princípios acima enumerados e em outros que em outros existem, a sociedade passará a ter outra moral, outros usos, outros  costumes, isto é, a nossa refundação colherá uma “jurisprudência” coletiva. Refundar é, assim, ir ao fundo do eu hoje e transformá-lo no eu de amanhã. Então, o meu hoje tem de se reajustar ao meu eu de amanhã? Fui ao fundo do meu fundo e não me refundei e verifico que sou obsidiado e prisoneiro dos fundos de outros tempos.




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