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Terapia jornalística

Sou uma pessoa “traumatizada”, tenho de o confessar. Nunca consegui habituar-me aos toques dos telemóveis em público. Considero mesmo uma sorte não ter licença de porte de armas, pois a minha ira levar-me-ia a fazer justiça por conta própria o que acabaria num banal filme de série B. Nos cafés, nos restaurantes, nos cinemas e até nas Igrejas – não obstante estar escrito em letras garrafais à entrada, que Deus nos chama, mas não por telemóvel – para não falar do flagelo das aulas em que os bicharocos não param de grilar…

Maria Susana Mexia
10 Nov 2012

Sabemos que não é permitido por lei, mas, aplicá-la, é uma missão impossível. Os meninos estão com “um olho no burro e o outro no cigano”, quer dizer, com um no professor, aparentando muita atenção, mas os seus dedinhos ágeis estão ininterruptamente a teclar, vivendo no virtual. As suas cabecinhas, quando apanham a matéria que está a ser lecionada, não a sabem digerir, não conseguem associar um novo conhecimento aos anteriores que, talvez, nem os tenham chegado a adquirir. Ficam sempre pela superfície, pela rama, colocando camada por camada como um mil-folhas, mas a inteligência não se desenvolve, não aumenta, não cresce, não vai mais longe do que o imediato oco das SMS.
Esta calamidade também já invadiu as Faculdades. Alguns cursos superiores são feitos neste compasso de morte anunciada, lenta e agonizante.
Auscultando um velho amigo, treinado noutros tempos, com outras pedagogias menos tolerantes, ele respondeu-me:” Minha cara amiga, essa gente acaba a licenciatura, mas nunca vai conseguir “um voo de águia-real”, ficam sempre grudados ao chão como as galinhas. Não querem nem conseguem ir mais longe, contentam-se com o bicar sempre no mesmo sítio, quer dizer no telemóvel e, assim irão ficar aves de ca-
poeira, destinadas a morrer sem terem conseguido captar a essência do mais, do além, nem tão pouco adquirido conhecimentos para um futuro profissional e humano com dignidade. Mas, cada um tem a liberdade de escolher a grandeza ou a pequenez do seu destino, a sociedade é seletiva, aqui a teoria de Darwin não falha: “salva-se o mais forte, o que desenvolveu competências, os outros caem pelo caminho que nem tordos!”
Sem pingo de sangue ou mesmo em estado de choque, ainda fiquei mais angustiada com a dimensão do meu trauma. Como não tenciono recorrer ao divã do psicanalista, nem o meu problema é freudiano, optei por desabafar com o meu querido leitor do que me dói conscientemente no ego e no super-ego.




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