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O mar português está zangado

Sempre o mar foi paixão dos portugueses. Quer de heróis, de descobridores, de poetas ou de contempladores, entre outros. Sempre soubemos amar o mar, respeitá-lo, explorá-lo, vivendo do mar. Nunca as duas primeiras repúblicas abdicaram do mar em nenhum dos seus aspetos e até nas moedas do dinheiro português existiam as caravelas.

Artur Soares
9 Nov 2012

O nosso mar era palco de muitos e grandes navios, de bons barcos de pesca e tínhamos dos melhores profissionais a explorar o pescado que consumíamos. Portugal estava ligado ao mar.
Através do mar se faziam os grandes transportes para Angola, Guiné, Moçambique, etc. e mesmo para o estrangeiro. Com o vinte e cinco do quatro tudo se alterou. Já não era preciso nem convinha caminhar-se para a África ex-portuguesa e tudo teria que ser feito para desligar Portugal do passado.
Além de ser vergonhoso ter-se utilizado o mar contra os africanos (então) portugueses, politicamente era imprescindível esquecê-lo para dar satisfações aos Americanos e sobretudo à Rússia de 1974. Entendiam assim os revolucionários do Processo de Revolução em Curso (PREC) e devia ser esquecida a política económica manual, sobretudo na zona agrícola, a artesanal, e virarmo-nos para a economia rápida, atual e mais rentável. Desse modo, agricultura e pescas, a exploração da terra e do mar, eram questões caducas, eram situações ligadas ao salazarismo.
Nesta terceira república, acabado o Império e lavada a cara dos revolucionários, passamos a comer géneros, produtos agrícolas e carne do mar importados e pagos a peso de ouro, atirando já nesses tempos de democracia, milhares para o desemprego e para a confusão profissional de tantos.
Tinha a segunda república de Salazar em 1970, 152 navios. Hoje, parece que ainda existem doze. Pescávamos cerca de 230 mil toneladas de peixe por ano que abasteciam o país e se exportava. Hoje, porque não existem navios nem barcos capazes para a faina no mar, pescamos menos de cem mil toneladas e, até o pescado na água doce, praticamente não existe.
A vizinha Espanha, que esfregava as mãos ao ver o abandono de Portugal pelo mar e tendo conhecido o acordo entre a União Europeia e Marrocos sobre a pesca marítima, deram uma volta de tal forma à indústria pesqueira que, abastecendo-se o suficiente, exportam atualmente peixe para qualquer canto e, como não podia deixar de ser, compramos peixe e produtos agrícolas à Espanha, entre outros países, sabendo que tudo isso nos custa 800 milhões de euros por ano.
Assim, nem se sabendo o que fizeram os governantes do dinheiro dos navios vendidos e porque ser revolucionário nesta terceira república era bem visto “pelos nossos amigos europeus”, sobretudo pelo “notre ami Miterrand”, o atual Presidente da República, Cavaco Silva, não teve problemas em ter abandonado definitivamente o interesse pela agricultura e as pescas e, encerrado a Marinha Mercante e a Construção e Reparação Navais.
Infelizmente, as nossas águas nem servem para industrializarmos o turismo nem fomentarmos os desportos marítimos. Assim há que pagar a fatura da perda da exploração da terra e do mar, pela opção das estradas e autoestradas que não levam o país a lado nenhum e reconhecermos que temos novas fortunas nas mãos de alguns políticos e que através da Lei n.º 34/87, ninguém investiga e ninguém julga.
É de crer que o nosso mar, abandonado e “sentindo-se” inútil aos portugueses, deve “estar triste” com um Ministério da Agricultura e das Pescas que parece não existir, mas sobretudo triste por pertencer a um povo sonolento, de falsas esperanças e sem convicções.




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