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Dar sentido… a um jogo sem sentido

Quem, como eu, iniciou a sua formação futebolística com dezassete anos no escalão júnior e ainda se recorda da dificuldade em adormecer na noite anterior, pela excitação do jogo, consegue imaginar sem grande esforço o que sentem, pelos mesmos motivos, crianças com oito e nove anos, idades com que muitos iniciam a sua formação futebolística atualmente.

Carlos Mangas
9 Nov 2012

Infelizmente sei, por conversas com pais e treinadores, que se há crianças que sonham com o dia do jogo e os golos que vão marcar, também as há que já não conseguem sentir prazer no jogo e têm pesadelos com a previsível goleada que irão sofrer e só querem que o dia e principalmente a hora do jogo, passem depressa.
Tudo isto porque, a exemplo de anos anteriores, a nossa associação mantém quadros competitivos totalmente inadequados em termos pedagógicos, fisiológicos e motivacionais aos escalões etários em questão. No final da época transata já sugeri neste espaço de opinião outra via de desenvolvimento desportivo, nestes escalões em concreto, as quais não foram tidas em conta, pelo que, resta-me fazer um apelo a quem vai lidar no dia a dia com crianças endeusadas/frustradas em função das goleadas obtidas/sofridas. Ele dirige-se essencialmente aos treinadores, embora os pais tenham também um papel fundamental na gestão das emoções em casa e nas viagens pré e pós jogos.
Caros treinadores, se o rendimento desportivo da vossa equipa é muito superior ao do adversário sugere-se que criem outras exigências às vossas crianças que contribuirão para uma melhor e mais conseguida formação humana e desportiva.
A título de exemplo, incentivarem a utilização predominante do pé fraco no passe ou finalização; fazer rotatividade nas posições; dar maior tempo de jogo aos atletas com menor capacidade dentro do próprio grupo; são apenas algumas das possibilidades de, num jogo de sentido único e por isso mesmo, sem nenhum sentido, dar… algum sentido ao jogo.
Para além destes pormenores, este tipo de competências adquiridas em idades iniciais de formação irá prevalecer ao longo das diferentes fases de crescimento desportivo e quem sabe, alguns anos mais tarde ou até mesmo no final da época, fazer a diferença entre continuar a prática no clube, ou… ser dispensado. Não será isto mais importante que qualquer goleada?
Mas, se fazem parte do grupo de treinadores a quem cabe dirigir equipas menos aptas, então a prioridade passa por manter os níveis motivacionais das crianças num limiar mínimo de aceitação que não leve à “desistência” no próprio jogo ou… na prática da modalidade. Façam com que as crianças compreendam e aceitem os motivos da diferença na qualidade de jogo (tempo de prática, seleção de jogadores, número de treinos semanais, etc…) e não lhes criem expetativas irrealistas, como por exemplo, de pensarem em ganhar jogos a essas outras equipas. Devem também levá-los a perceber a realidade do seu jogo. Se não conseguem chegar à baliza adversária e sofrem goleadas por dez ou vinte golos de diferença, então é tempo de ensinarem às vossas crianças o abecedário do futebol (passe, condução, desmarcação, remate, desarme, marcação, cobertura, etc…) e depois, ao fim de semana, minimizar prejuízos no confronto desigual com outras que, futebolisticamente falando, já fazem “redações” e “ditados”. É com esta realidade que treinadores, crianças e pais têm de (sobre)viver para conseguirem manter em conjunto, a paixão pelo jogo.
Nunca devemos no entanto esquecer que, também no futebol, cada criança tem o seu ritmo de aprendizagem e a maior vitória que se pode obter, é a sua continuidade na prática da modalidade nos anos subsequentes. 




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