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Os militares

Falar dos militares é lembrar os serviços relevantes que prestaram a Portugal, desde a defesa do ultramar até à restauração da democracia Os militares têm os mesmos direitos de cidadania que os restantes portugueses. Por isso acho legítimo que se manifestem, que façam greves, que reivindiquem salários, que exijam progressões e mais inerências sociais. Mas se assim entendo, porque assim o julgo justo, não percebo por que razão ficam muito sensíveis quando falam de militares que têm salários hipotecados.

Paulo Fafe
5 Nov 2012

E dizem isto em público como se alguém tivesse culpa de eles se terem endividado enquanto cidadãos, de se terem empenhado com gastos que os seus vencimentos não cobriam! Vamos esclarecer as coisas de uma vez por todas: os militares não são mais, nem são menos que qualquer um de nós. A Constituição não lhes confere quaisquer privilégios que os coloquem numa posição exterior a qualquer tratamento de igualdade. O mesmo se diz dos paramilitares, PSP e GNR ou similares: são cidadãos e não filhos de algo que os coloque numa qualquer  bolha inacessível. As glórias do passado  falam de tempos que já não contam. Ficam na grata lembrança do obrigado. Por isso se houve militares ou agentes policiais que gastaram mais do que podiam, e chegada  a hora de pagar e não podem, têm que se enfrentar com as dificuldades  com que se confrontam milhares de funcionários públicos. Até parece, pelas declarações dos sindicatos dos militares, que é uma ofensa,  ou uma vergonha nacional, os seus agentes terem os seus vencimentos hipotecados. E não os têm os professores e tantos outros funcionários do estado?  Onde está a ferida senão na ferida que provocaram?  Sabem o que se diz cá fora duma declaração destas? lá estão os ex-príncipes a sonhar que ainda têm principado. Na democracia, que ajudaram a restaurar em 25 de Abril de 1974, passaram a ser cidadãos normais onde o primado de tratamento é o da igualdade. Julga muita gente que os militares fazem das armas que têm um argumento chantagista. Julgo que é uma injustiça pensar-se assim. Nem todos são Otelo Saraiva de Carvalho.  As revoluções que se fazem apenas pela razão da força acabam sempre por perder a força da razão. Os serviços que prestaram à restauração da liberdade não são justificativo para a sustentação de uma força militar privilegiada. Se eles restauraram a democracia outros a consolidaram com a mudança de atitudes em uso da cidadania. A democracia restaurou-se no dia 25 de Abril,  mas consolidou-
-se com os partidos políticos, com os sindicatos, com as associações de classe, com a constituição, com o povo e fez-se e vai-se fazendo no uso consciente de direitos e deveres de cidadania. Como em qualquer revolução consolidar vale tanto como conquistar. Muitos contestam a utilidade das forças armadas e perguntam se os gastos com elas justificam a sua existência. Numa democracia tudo se discute e tudo se equaciona. Outros fazem balanço menos negativo quanto à existência das forças armadas, mas vão dizendo que poderiam muito bem serem transformadas em serviço de segurança público, na vigilância no mar português e, aereamente em prevenção e defesa das nossas florestas. Para tal não precisaríamos de armas de guerra, de jatos supersónicos ou de grandes navios, muito menos de submarinos. O povo português começa a perceber que  quando a utilidade se transformou em inutilidade todo o gasto é supérfluo. Saírem à rua ordeiramente, protestar e reivindicar é um ato normalíssimo duma classe, numa democracia adulta como a nossa, é mais que natural. Nem sei por que razão se espantam aqueles que têm os olhos cheios e fartos de outras manifestações; são-nas de todos os quadrantes da vida portuguesa. Os militares são mais uns, entre esses outros tantos.




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