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“Stôr, posso ir à casinha?” ou o sofrimento no trabalho

Não há um professor a quem a pergunta não tenha já sido feita: “Posso ir ao quarto de banho?”. Respostas houve e haverá muitas. São simples e sabidas. Não se conhecendo histórias de exageros, nem se prevendo qualquer abuso, pode ser que sim. Um não será certo quando é obvio que o pedido – uma interpelação insolente, muitas vezes – é apenas um pretexto para um pequeno passeio. Outro não, para referir mais um exemplo, haverá se se percebe que, logo a seguir e para sempre, a porta da sala de aula terá de estar aberta ininterruptamente para todos.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
4 Nov 2012

Não havendo, na escola, uma regra de aplicação geral, o bom senso encarregar-se-á de, em cada momento, ditar o que fazer. Seja como for, episódios mais ou menos irrelevantes deste género, que fazem parte da rotina escolar, começam e terminam no mesmo sítio. As ninharias, quando ocorrem, devem-se circunscrever ao mínimo espaço e tempo. Parece óbvio, mas não é.

Por não ser, um pai, resolvendo inflacionar a insignificância, foi a um estabelecimento de ensino protestar contra um professor por este não ter permitido que um adolescente, filho do reclamante, saísse da aula para ir ao quarto de banho. A irrelevância do assunto não impediu a sua sequência nas páginas de um jornal. E, aliás, ao que parece, não se ficará por aí, pois diz a notícia que o pai apresentou uma queixa ao Ministério Público para procedimento criminal contra o professor que não deixou o adolescente ir ao quarto de banho. Este paroxismo da bagatela mostra bem o estado mental a que se chegou. Mas a história de um professor ameaçado de ir a tribunal por não deixar um aluno ir ao quarto de banho é para aqui chamada por servir de exemplo eloquente da tensão que pode envolver hoje o exercício de uma profissão.

Lê-se e fica-se a julgar que, em não poucas ocasiões, pouco parece faltar para que um professor não seja obrigado a ir para a sala de aula acompanhado de um advogado, que, a todo o instante, lhe dirá o que deve ou não dizer e fazer. “A pergunta que pretende fazer ao aluno, assim formulada, é susceptível de ser interpretada como uma ofensa à integridade psíquica ou à personalidade moral, um crime que o Código Penal pune. É melhor colocar a questão de outro modo…”, aconselhará o advogado. Pouco depois, perguntará o professor: “Incorro em algum crime, senhor doutor, se pedir ao aluno para parar de chamar nomes à colega?”.

Os professores nem sempre, obviamente, têm problemas com os alunos e, quando têm problemas, nem sequer os têm, sobretudo, com os alunos. Os problemas profissionais também não afetam apenas ou principalmente a classe docente, não sendo ainda um problema só português. “Depressões, esgotamentos, suicídios…: os sintomas do sofrimento no trabalho, identificados pelos sociólogos desde há vinte anos, agudizam-se”, pode ler-se no penúltimo número da revista francesa Les Inrockuptibles.

“O trabalho mata, como se pode constatar todos os dias (um suicídio por dia por causa do mal-estar no trabalho). Os trabalhadores não estão todos mortos, mas têm sido todos atingidos”, garante o autor do texto, o jornalista Jean-
-Marie Durand, que acrescenta que qualquer coisa de destruidor está a ocorrer em todos os setores profissionais, privados ou públicos, e de todas as categorias. Por todo o lado se manifestam os mesmos sintomas: desencanto, incompreensão, perda de sentido, esgotamento, stress, depressão, além de perturbações musculares e esqueléticas e outras patologias de sobrecarga laboral… E, no entanto, diz o jornalista, tudo continua na mesma. O sofrimento no trabalho não só não faz parte de qualquer política pública, como o Estado e os gestores se estão nas tintas para o que se passa. “Sejam felizes por sofrer no trabalho, pelo menos têm trabalho”, consideram.

O texto serve para apresentar três livros sobre “os efeitos mortíferos da ideologia gestionária do new public management”. Num deles (Manifeste pour sortir du mal-être au travail, de Vincent de Gaulejac e Antoine Mercier), há uma clara identificação dos sintomas e das razões deste mal-estar (pressão, cultura da urgência, instrumentalização, regras paradoxais, isolamento, degradação do amor pelo ofício, perda de sentido…) e um convite para que a questão do sofrimento no trabalho seja inserida no âmbito político global, para ousar, enfim, desconstruir um sistema, criticar frontalmente os pressupostos da ideologia gestionária que impregna as nossas vidas profissionais, sem que haja alguém, a não ser cada um na sua própria experiência isolada, que lhe preste atenção. Importa, portanto, que cada um se sinta menos só no seu sofrimento e que todos percebam que o mal-estar no trabalho não é um problema privado, mas uma epidemia de saúde pública, muito contagiosa, que tem de ser devidamente tratada.




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