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Comportamentos de compensação

Apesar de ser freudiana por formação, Karen Horney foi sempre independente de Freud na procura da verdade em relação e não receou discordar naquilo em que considerava que ele não tinha razão, criticando a teoria freudiana de estar basicamente prisioneira de um mecanicismo biológico e instintivista. Nessa altura, poucos tiveram essa coragem e essa lucidez.

M. Ribeiro Fernandes
4 Nov 2012

Discordou também de Freud sobre o significado atribuído ao emblemático Complexo de Édipo, dizendo que não se trata de um conflito de natureza agressiva e sexual entre a criança e os pais, mas de uma ansiedade decorrente de distúrbios básicos sofridos na sua relação precoce com eles, por causa de sentimentos de rejeição, de superproteção ou por reação a castigos que sofreu. Outra discordância significativa diz respeito ao caráter de inato atribuído à agressividade, como postulava Freud. Para ela, a agressividade não é inata, mas apenas um meio de adaptação social pelo qual o homem procura defender a sua segurança. Nem o narcisismo é um amor-próprio exagerado, mas a necessidade de se sobrevalorizar face aos sentimentos de insegurança do sujeito.

Assim, o conceito de ansiedade básica desempenha, na sua teo-ria da personalidade, um papel de charneira para ajudar a compreender muitos dos distúrbios de comportamento ou comportamentos de compensação, cuja origem se reporta aos primeiros tempos de criança. Se a criança se sente ansiosa e desprotegida perante um mundo que ela desconhece e representa como hostil, isso leva-a a sentir uma ansiedade básica que, se não for ajudada a superar, pode deixar marcas nos seus mecanismos de ação da personalidade e induzir procura de compensação inadequada em relação aos estímulos em presença. Todos nós podemos observar que a criança ansiosa e insegura procura desenvolver estratégias para lutar contra os sentimentos de desamparo e de isolamento. E que essas estratégias se podem ir transformando, por força da repetição e do tempo que subsistem, em conduta habitual sob a forma de impulso, de necessidade ou de dinâmica da personalidade. É isso que ela chamou de necessidades neuróticas, porque são irracionais, são apenas formas de defesa ou de compensação da sua personalidade.

Se a pessoa não for capaz de tomar consciência do que se passa interiormente consigo e não tentar corrigir o seu modo de estar, estas necessidades de compensação tendem a tornar-se padrões de comportamento, a tornar-se hábitos de estar na vida. É a partir daqui que Karen Horney sintetiza, numa lista de dez, estas necessidades neuróticas. Claro que a vida não se pode reduzir a um reportório de 10 formas de reagir, nem era esse o pensamento de Karen; era apenas uma forma de concretizar as tendências mais frequentes. A verdade é que estas formas de comportamento de compensação representam um instrumento e uma ajuda muito interessante para nos conhecermos melhor e para sabermos lidar melhor com os comportamentos de outras pessoas que convivem connosco. Talvez conhecendo-nos melhor possamos também entender-nos melhor.

No próximo artigo, vamos resumir 10 necessidades neuróticas enunciadas por Karen Horney, não de uma forma restritiva, mas como tendências mais comuns.




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