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O mistério da morte

A morte é uma questão essencialmente antropológica. Coloca-nos a interrogação do significado da vida e o sentido de toda a existência humana. Por isso é também uma questão ética, filosófica e teológica.Ela faz parte da natureza do homem, mas, ao mesmo tempo, transcende-a. Ee é o único ser capaz de viver a própria morte. Ao contrário dos animais, o homem carateriza-se pelo seu próprio EU, pela sua singularidade, a consciência do seu ser e do seu saber, aliada a uma vontade imensa de se superar, de se ultrapassar e ir para além do próprio corpo.

Maria Susana Mexia
2 Nov 2012

É vencendo-se como homem que o sujeito consegue elevar-se acima da humanidade e procurar perpetuar-se para sempre, imortalizando-se.
O homem é a única espécie viva que sabe que deve morrer. Daí a necessidade de transpor esta realidade para o plano racional, reflexivo e espiritual.
O ser humano é mortal desde a sua conceção. Ele é “um ser para a morte”. A qualquer momento, este destino se pode cumprir. O confronto com esta realidade impele-nos a repensar a vida, na busca de uma autorrealização da pessoa humana e a um aprofundamento da autoconsciência no sentido de cumprir a existência em pleno antes que tarde nada sermos.
Perante a morte, há uma radical impotência do homem face ao presente terreno e, no limite da vida, face ao todo numa dimensão transcendental.
A morte confronta-nos com o mistério do absoluto na medida em que não sabemos o que é morrer, nem estar morto, a situação de já não ser no espaço e no tempo e a expetativa de passar a existir “do outro lado da vida”.
É esta experiência do incógnito que conduz o homem a um processo da maior humanização e busca de compreensão.
Desde as civilizações mais remotas, em todas as culturas, o ritual de enterrar os mortos sempre foi muito seriamente vivido, com ritos próprios e sagrados, não obstante a religião praticada.
Filosofar é preparar-se para a morte dizia Cícero, retomando a linha de Platão, para o qual a vida inteira do filósofo mais não era do que uma preparação para esse inevitável fim.
Também St. Agostinho, nas suas Confissões, nos deixa esta perplexidade: “Que pretendo dizer, Senhor, meu Deus, senão que ignoro donde parti para aqui, para esta que não sei como chamar, se de vida mortal ou morte vital”.
Só o cristianismo ousou transformar a morte numa vitória, naquilo que não era, pois encarou-a como um fim/princípio de outra e definitiva vida.
Não é uma teoria nem uma opinião, mas uma promessa de eternidade que propõe a todo o homem, finito e mortal, algo mais do que o absurdo duma existência terrena e efémera.
Será, então, a morte um acontecimento único e irrepetível que vem dar à vida humana um sentido de totalidade, de completude dum fim, após o qual se abre ao homem “o mistério de ser para além da vida”.
Onde estarei quando já cá não estiver? Vale a pena insistir nesta promessa de eternidade, na certeza de que é imensamente redutor e claustrofóbico não admitir uma continuidade para além do limite do já não ser.




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