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A nobreza da naturalidade e da simplicidade (II)

Se o homem não souber digerir e usar o progresso técnico de um modo construtivo e consentâneo com a sua natureza, talvez seja preferível recuar um pouco, refletir sobre as suas consequências e, nestas circunstâncias, recuperar o autodomínio e a autoconsciência perdidos e que fazem parte integrante da verdadeira missão social do homem durante a sua existência real.

Artur Gonçalves Fernandes
2 Nov 2012

Ouve-se dizer às pessoas que são autênticas. Mas que autenticidade e coerência são essas que as levam à devassidão dos costumes, à lascívia irracional, ao hedonismo desmedido e ao enquistamento dos princípios cívicos mais elementares? E o mais grave é que eles fazem um alarde público escancarado e jactante de tais comportamentos sórdidos, apresentando-se como “modelos” a imitar, não querendo pensar na futilidade e na fugacidade que essas atitudes encerram.

Hoje, mais que nunca, há necessidade de parar e meditar sobre o rumo lodoso onde pode desembocar uma grande parte desta geração e das vindouras. Thoreau escreveu, com toda a acuidade: “Fui para a floresta porque pretendia viver ponderadamente, encarar apenas os factos essenciais da vida e ver se podia aprender o que ela tinha para me ensinar antes de morrer”. O homem bem avisado procura sempre simplificar a sua vida, discernindo o essencial do acessório, sabendo fazer as melhores opções no seu dia a dia. Os nossos desejos são incontáveis, nunca se podendo satisfazer totalmente, mas as nossas reais necessidades são poucas. Simplificando as coisas e afastando um bom número de preocupações, aumentamos automaticamente a qualidade da vida, contribuindo para a nossa felicidade.

É certo e lógico que a simplicidade anda de mãos dadas com a naturalidade e com a boa convivência humana. Toda a gente anda assoberbada com tantos trambolhos atrás de si que não lhe resta tempo para refletir sobre o mais importante. A vida transforma-se numa luta diabólica pelo lucro ganancioso, numa lufa-lufa louca de um lado para o outro, à custa da saúde, do desgaste prematuro da própria existência e da paz de espírito. Hoje vive-se depressa de mais num estresse constante.

A verdadeira simplicidade consiste em fazer a viagem da vida tendo como objetivo adquirir o essencial para viver desafogadamente ou, pelo menos, numa situação de sobrevivência digna. As grandes verdades e as maiores conquistas são sempre as mais simples. Quanto maior for a simplicidade da vida, mais seguro será o bem-estar. Fica-se mais abrigado ou escudado em relação às surpresas e aos reveses da vida. Há décadas atrás as coisas eram mais simples, as pessoas compreendiam melhor a vida. Do modo como as coisas evoluem e caminham hodiernamente, o mundo ficará nas mãos de um reduzido número de pessoas num futuro próximo. Isto acontecerá inapelavelmente se o homem não acordar para compreender que a vida é mais que progresso científico e tecnológico que está a ser aplicado, em muitas situações, de um modo enviesado e até desumano, levando à decadência dos elementos naturais da vida.

Qualquer que seja a idade, todo o homem está a tempo de orientar a sua vida pela simplicidade e pela naturalidade. Deve-se usar e aproveitar aquilo que cada um tem, tentando melhorá-lo sem ganância e sem grande preocupação. A verdadeira felicidade não depende da posse de grandes haveres materiais, mas ela provém, sobretudo, de uma atitude mental que comporte e solidifique a autoconfiança, a serenidade, a solidariedade e satisfação no dia a dia.

Rodha Lachar adverte: “A sua vida é o que dela faz. Pode ser simples se o seu objetivo for a simplicidade. É preciso ter coragem para nos afastarmos dos mil e um obstáculos que tornam a vida complexa, mas consegue-se”.




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