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Um vício precoce

O vício foi, como habitualmente, mais forte do que a resolução de não o satisfazer e, logo pela manhã, ainda de olhar ensonado, caiu na tentação. “Depois, só ao fim do dia”, pensou, satisfeita por acreditar que assim seria, e atenuando a ligeira culpa que sentia por aquela sua cedência matutina. Foi para a escola e aguentou estoicamente a manhã de aulas. Chegou a casa e correu para o quarto, gritando “Já venho!” à mãe, que punha o almoço na mesa.

Paulo Rodrigues
30 Out 2012

Durante a tarde, no seu quarto, acabou por sucumbir várias vezes, tanto enquanto estudava, como durante os intervalos que ia fazendo, sempre de ouvido atento para o caso de a mãe se acercar. Chegada a noite, pouco tinha conseguido estudar.
Jantou depressa, em ânsias, e esperou pacientemente que os pais acabassem a refeição. Seguiu-se o penoso auxílio na arrumação da cozinha.
Terminada a tarefa, voltou ao quarto e, ressacada, entregou-se ao vício. Aquela era a hora em que melhor lhe sabia. Mal chegou, esticou o pescoço para o computador portátil, que permanecera ligado toda a tarde, e foi ver, pela enésima vez naquele dia, o seu Facebook. Era esse o seu vício, alimentado a várias doses diárias, sem o qual parecia já impensável passar 24 horas seguidas.
Observou, com um sorriso vitorioso, que a foto que publicara, perdão, “postara”, há menos de uma hora, obtivera vários “Gosto’s” e granjeara vários comentários. Tratou de pôr o seu “Gosto” em cada um deles e, claro está, comentou–os de seguida. Entretanto, ia também descendo o “feed de notícias” para ver o que os “amigos” tinham publicado. Mais uma catadupa de “Gosto’s”, “lol’s”, “XD”, “;)”, “<3”.
Ao lado do portátil, os livros e cadernos permaneciam esquecidos, pois aquela era a hora de ponta do Facebook. A maioria dos seus “amigos” encontrava-se “online” e as solicitações vinham de todos os lados, a cada segundo, e era urgente dar-lhes resposta.
Olhou para o relógio. “Já??? Não pode ser. E ainda tenho os TPC para fazer!”. Lá teria de ser. Porém, antes, de se virar para os livros, decidiu mudar a foto de perfil, como se a que lá estava já tivesse passado de validade. Escolheu uma de grande plano do rosto, de olhos atirados para o infinito e de cabelos esvoaçantes.
Finalmente, os deveres. O pior: Facebook ligado mesmo ali ao lado. A consequência foi que, passados segundos, espreita no canto inferior esquerdo um pequeno retângulo azul a gritar “X gosta da sua foto”. A seguir “Y gosta da sua foto”. Depois “Z gosta da sua foto”. Em minutos, todo o alfabeto já tinha gostado e comentado a foto dela. Havia, então, que agradecer, não podia ser ingrata. Os deveres podiam esperar mais um pouco.
E esperaram. Não havia como competir com o chamamento tentador daquela rede social, que a envolvia, a chamava, a cercava, a VICIAVA.
Deitou-se, já com os trabalhos feitos à pressa, mas sem grande peso na consciência por causa do tempo que perdera. Não havia mal. “Amanhã só vou ver o meu Face à noite”, prometera a si própria, mais uma vez.




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