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O futuro será só dos novos?

Na última semana, não estive atento às notícias. Porque não quis. A solução de recurso para escrever esta crónica foi o meu caderno de apontamentos. Lá estava um assunto, numa das últimas páginas, que me comprometi a tratar quando fosse oportuno. Tinha-o sublinhado e estava a “bold” para não esquecer. Deu jeito a sua inscrição no caderno para memória futura e não também deixa de ser atual. O episódio que deu origem ao registo igual ao do título aconteceu recentemente. Foi numa instituição pública do distrito de Braga.

Luís Martins
30 Out 2012

Eis o enquadramento, para depois escalpelizar, tanto quanto possível, o assunto. Filomena (o nome é fictício), com menos de 60 anos de idade, há mais de 30 anos na instituição onde sempre trabalhou e que atravessa atualmente uma fase de reestruturação(?), responsável desde há uma meia dúzia de anos pela coordenação de um grupo de trabalhadores, foi solicitada a comparecer numa reunião com o novo Diretor. Para não perder grande tempo – o discurso já estava preparado para que a decisão não tivesse retrocesso – o caloiro disparou: “como sabe, as coisas estão a mudar e não estou a pensar em contar mais consigo nas funções que está a exercer”. A colaboradora ainda arrancou com um “mas, Senhor Diretor…” – o seu serviço não foi objecto de alterações funcionais – no entanto, tal não mereceu contemplações por parte do superior, que insistiu no corolário da oração sintática que tinha preparado: “o futuro é nosso, é dos jovens”.

Os que já deixámos a juventude há algum tempo, costumamos dizer, é verdade, que o futuro é dos jovens. São eles que governarão o país e as instituições nos anos vindouros. Não o dizemos por mal, mas por bem. São eles que assegurarão o nosso futuro coletivo. É a lei natural da vida. Os nossos jovens serão, na verdade, o nosso futuro. Responder como aquele responsável respondeu a uma colaboradora da instituição a que chegou, que podia ser sua mãe, é que já não é normal. É até lamentável, a todos os títulos. Uma falta de respeito inoportuna e imperdoável. Uma atitude que demonstra a falta de valores, a falta de berço. No mínimo, a inexperiência de muitos dos nossos gestores.

Se estivermos a discutir o assunto no âmbito do futebol, por exemplo, faz sentido selecionar e utilizar os mais novos. São eles e só eles que têm possibilidades de atingir grandes marcas ou terem desempenhos ímpares. Ao contrário, noutro tipo de funções, idade e experiência contam e muito. Não podem ser desaproveitadas nem agredidas emocionalmente as pessoas de uma qualquer organização. Isso é segregação. Gerir uma instituição de serviços não é gerir uma equipa de futebol. Nem as funções justificam que se substituam colaboradores como se substituem jogadores durante uma partida.

Vão-me desculpar os políticos que também são gestores (dignos do nome), mas muitos dos males de que padece o país têm a sua génese nessa confusão que é os políticos, pelo simples facto de o serem, acharem que podem ser gestores. Errado. Muitos dos prejuízos com que o país se confronta têm advindo do facto de a política suplantar, mais do que devia, a gestão. Gerir tem procedimentos, requer atitudes, tem regras básicas que o político normalmente não sabe ou para tal não tem jeito. Sobretudo quem é caloiro, sem experiência de vida, embora possa ter muita ambição. Gerir recursos humanos não se faz como quando se prepara uma lista numa qualquer secção partidária, arregimentando aqueles que dizem “amén” e são da mesma linha ou fação. Gerir requer vocação e saber estar. Aprende-se nos livros, mas também muito com a experiência. Infelizmente, a política faz catapultar, quantas vezes, para lugares determinantes, muitos que não sabem nada de gestão, dando-lhes o título de presidente, de diretor, de administrador ou outro equivalente, escondendo a impreparação, a ignorância e a falta de escrúpulos.

Estamos num tempo, como é elucidativo o episódio a que aludi, em que alguns jovens começam a ser, não apenas o futuro, mas também o presente, o que, em si mesmo, não é mau. No entanto, é de ficar preocupado, sobretudo se a cartilha por que leem os novos gestores do país e das instituições for a mesma da que leu o caloiro do episódio reproduzido. O futuro só será dos novos? Espero que não. Não podemos ficar doravante condenados, os que já vivemos mais alguns anos, a não usufruir do futuro. Todos os que formos vivos temos que ter lugar no próximo tempo. Espero também que tenhamos melhor sorte e que os que agora acham que o futuro não será para os mais velhos aprendam que a vida não pára e que, logo mais, poderão acabar nas mãos dos seus atuais cúmplices.




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