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Chegaram os dias cinzentos, não fuja deles

Corremos o risco de atrofiar a nossa existência, privando-nos de alcançar patamares mais ricos e mais humanos, quando tentamos afastar, e depressa, para se impedir o risco de exclusão familiar e/ou social, estados de humor como a raiva, a melancolia, a frustração, a tristeza, a ansiedade e o medo que, em circunstâncias legítimas, são naturais e até transformadores.

Silvia Oliveira
30 Out 2012

As emoções perturbadoras não têm de ser “as más da fita”, sobretudo se nos permitirem o questionamento e a autoconsciência, isto é, o reconhecimento de uma emoção enquanto ela decorre, ou dito de uma outra forma, o comportamento saudável que nos pode conduzir a mudanças, em períodos de crise.

Tal como a alimentação saudável, o exercício físico e o sono reparador, são sinónimos de saúde e bem-estar, também a gestão das emoções deve ser considerada como uma espécie de bússola de orientação interna, pela finalidade que tem de adaptar o homem às circunstâncias, o que naturalmente é o mesmo que voltar a falar de saúde e bem-estar, independentemente de, num caso, a atuação ser mais física, e no outro, mais psicológica.

Porém, nem sempre é fácil lidar com tantos e tão rápidos estados de humor que preenchem o nosso quotidiano. Basta que surja um acontecimento inesperado, como a morte de um familiar, um divórcio, a perda de emprego, entre muitos outros, importantes ou até banais, para que o mundo interior fique, na maioria das vezes, virado do avesso, agudizando fragilidades até então ocultas, que encontram nestas carências e perigos a oportunidade e o desejo de uma “felicidade” individual.

Chegados aqui, a negação da presença das pressões que nos afetam, das mais triviais às mais complexas, ou a reação desmedida a elas, de forma persistente, comprometem seriamente a vida pessoal e profissional, isto sem contar com os danos físicos e psicológicos que estes quadros reativos acarretam.

Em alternativa, entrar fundo, bem dentro de si mesmo encarando as experiências emocionais, difíceis, de frente. Dito de outra forma, colocar as emoções negativas ao espelho, pensar que o medo é legítimo, mas não nos pode atar as mãos e os pés, podendo ser até o impulsionador da coragem dos guerreiros; que a humilhação dói, mas nos ajuda a voltar a assumir riscos; que a deceção faz parte da vida, mas a capacidade de confiar também; que a zanga é válida, mas sem a velha máxima “olho por olho, dente por dente” porque, afinal, não somos os únicos a passar por todas estas sensações.

Tudo é temporário, ou seja, não dura para sempre, restando-nos, apenas, em tais quadros em que a sensação é de derrota, ressentimento, aversão e até ódio, inutilidade, impotência, apego, revolta e muito sofrimento, saber parar, parar para refletir, entrando assim nos dias cinzentos, os verdadeiros “mágicos” de sabedoria e transformação.




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