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Sarar dói

E nós que julgávamos que estávamos sozinhos nas ruas a protestar?! Afinal é por toda a Europa, em Espanha, na Itália, na Grécia, em França e até no Reino Unido, que nem sequer tem o euro como moeda nacional! Que se passa para que esta contestação contra as medidas de austeridade adquira um caráter epidémico? A resposta é simples. Habituaram o povo a um nível de vida que agora baixá-lo custa imenso. Mas será apenas isto ou antes e também um acordar para uma nova realidade económica e financeira?

Paulo Fafe
29 Out 2012

Na verdade, a economia tinha gerado umas finanças contabilísticas em que os cálculos dos lucros a qualquer preço tinham-se sobreposto às pessoas e seu modus vivendi. Esta contabilidade, enquanto  máscara de um falso desenvolvimento económico, pôde estar como uma doença silenciosa assolapada, mas agora que esse engodo de desenvolvimento alicerçado no empréstimo fácil e abundante rebentou, como bojega que era, e chegada a hora dos pagamentos, então a contabilidade saiu da toca e exigiu a cada cidadão e a cada país os dinheiros dos juros e a cobrança dos empréstimos.

O criado virou amo, ou, se quisermos, o humilde virou arrogante. A bolha rebentou e, como dentro dela não havia uma economia substantiva, isto é, sustentada em rendimento estruturado, antes uma ilusória abastança de dinheiro em circulação, nada ficou para se ver. Restaram apenas as lágrimas amargas e muitas do sofrimento de uma baixa de vida que custa agora a suportar. A geração do crédito fácil acordou e agora que toma conta de quanto pode não fazer, custa-lhe olhar para o passado recente e berra tão alto quanto lhe ordenam o desespero e o medo;  barafusta como qualquer um quando é ludibriado  por uma publicidade enganosa.

Aproveitam-se deste descontentamento os partidos de esquerda e os sindicatos ou associações profissionais. É o seu S. Miguel, isto é, é a ocasião da sua farta colheita. O que eles colhem são os descontentamentos com a avidez dos que sabem que, se a austeridade vingar, tão cedo terão que procurar na ideologia o sustento para as reivindicações. Mas convém lembrar: o povo não está a ser enganado agora. O povo foi enganado ou andou a ser enganado há, pelo menos, uma década e meia; o povo não deveria berrar contra quem lhes aponta a verdade da situação económica  de hoje e do país onde vive. O povo deveria berrar contra os que o enganaram e  lhe semearam a ilusão de gastos largos.

Eu compreendo que berre agora porque é agora que a ferida dói. Eu sei que, enquanto a doença se não manifestou  e viveu na ilusão de boa saúde, os sorrisos eram bons e foi fácil de acreditar. Eu sei que os governos anteriores lhe vendaram os olhos com grandes obras públicas e lhe mostraram a felicidade e a facilidade da abastança com créditos fáceis. Mas, agora, que é preciso espremer a ferida para que ela se não torne crónica e possa sarar, é que se vê quanto a terapia  custa. O povo é o menino que tem medo da agulha mesmo que a injeção seja para curar ou prevenir a doença.

Mas é assim mesmo e de nada vale dizer que deveria ser doutra maneira porque, na verdade, outra maneira não existe para sarar uma doença a não ser pela dor da terapia. Se o remédio for mais suave, o doente não sofre tanto os efeitos secundários dos remédios. O que fica é a sofrer mais tempo.




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