Fotografia:
Pela calada, novo ataque contra o Tua

1 – Três misteriosas peritas decretam que uma barragem no Tua afinal está óptimoNão viesse eu com o rádio do carro ligado, a meio da tarde de 6 ou 7 de outubro último e, provavelmente, ainda hoje não estaria a par do retrocesso, da marcha-atrás que levou a antes zelosa e crítica UNESCO a fechar os olhos aos monstruosos impactos que causará (se for feita) uma barragem no rio Tua.

Eduardo Tomás Alves
28 Out 2012

Digo isto, porque a repercussão de tão negativa notícia nos órgãos de comunicação foi decididamente mínima ou quase nula. Pode ser desatenção minha, mas nenhum dos principais jornais nacionais lhe deu qualquer relevo, o mesmo se podendo dizer dos canais de televisão; pelo menos não apanhei nada. Os portugueses são realmente muito confiados. E depositaram nesta “nova troika” agora feminina, a confiança absoluta de que ela faria o necessário para salvar o portentoso vale. Viu-se que, afinal, elas não se aperceberam da majestade do local. O público, esse também não foi informado da composição da misteriosa delegação. Da qual se esperava o lógico decreto que salvaria o maravilhoso desfiladeiro (por onde corre, sem dúvida, o mais belo afluente do Douro) da ganância de empreiteiros sem cultura nem vergonha. E dos políticos, seus empregados. Se não nos foi dito quem eram as senhoras, resta-nos especular, em face da cegueira e insensibilidade que demonstraram. Uma há-de ser chinesa, pois a EDP foi comprada por esse “país de ecologistas” a quem agora pagamos a fatura mensal dos nossos consumos. Outra há-de ser engenheira ou arquiteta, dessas que fizeram exame de inglês técnico ao domingo e desenham casas que parecem máquinas de lavar. A 3.ª deve ser alguma psiquiatra de Amsterdam, Tel-Aviv ou N. York, interessadíssima em conhecer os galáticos limites da nossa burrice, incultura e subserviência.

2 – Então já não há grandes impactos?
Mas é claro que há! Em 1.º lugar, é o vale inundado e o alto paredão. Em 2.º, são 20 kms de linhas de alta tensão pelo vale do Douro abaixo (ou ao lado) até Armamar. Em 3.º lugar, é 1 ou 2 novos parques eólicos no núcleo da mais bela região de Portugal. E é assim porque, sendo o Tua e o Sabor rios secos, a barragem por si não dá rendimento e precisa da ajuda de uma data de ventoinhas. Ora tudo isto é um logro: gastar 300 ou 400 milhões de contos em 2 barragens, quando metade do país passa fome, é uma ignomínia. Pressurosa, a farisaica Quercus veio declarar, e logo nesse dia, algo como: “pronto, meus amigos, agora já não há nada a fazer, as obras vão continuar”. E o CDS, a que pertence a ministra Cristas, essa bela “flor carnívora”, vai ao fundo com o vale.

3 – Abrem barragens, fecham escolas e tribunais
Nos últimos 10 anos, fizeram-se, na despovoada Trás-os-Montes,  autoestradas e modernas estradas caríssimas, onde quase não passa ninguém (e que vamos pagar por 40 ou 50 anos). Estão a fazer-se duas megabarragens (Sabor e Tua). Implantaram-se já centenas de impactantes ventoinhas. Progresso? Nada disso. Este mês, vão fechar os tribunais de Carrazeda, Vila Flor, Vinhais, Vimioso e Miranda do Douro. Sócrates fechou centenas de escolas primárias, além de maternidades e centros de saúde. Como se vê, “o saldo é positivo” e os transmontanos saem a ganhar. Sócrates foi corrido, mas teve o cuidado de fazer escola.

4 – E quem são os meninos que vão pagar a barragem, quem são?
São os portugueses, é claro. A Democracia corta nos empregos, ordenados, pensões e reformas. Aumenta brutalmente os impostos. Sobe os combustíveis e põe as SCUT a catar os automobilistas. Privatiza os anéis e os dedos. Põe o povo a passar fome. Mas arranja sempre dinheiro para barragens e autoestradas. Nem que não seja por outras razões (destruição da Natureza, perda de turismo), é sobretudo  porque neste momento estamos à beira da fome e da falência, que eu acredito que não se fará a barragem no Tua. A teimosia dos chineses e dos empreiteiros será uma imoralidade que vai fazer abanar (ou até cair) o próprio Regime. Eu tomaria cuidado.

5 – O general birmanês e o escritor Antero de Figueiredo
Para aqueles que porventura pensem que eu sou parvo, por vir para aqui tantas vezes defender o Tua e o Sabor, recomendo que leiam Torga. Ou então, que leiam o texto de Antero de Figueiredo (m.1953) publicado no Diário do Minho (Suplemento Cultura) a 28-9-2012. Em que enaltece as vistas do vale, desde a aldeia de S. Mamede, um dos seus melhores miradouros. E onde tinha casa o grande escultor Teixeira Lopes.
A terminar, o seguinte. Há dias apanhei na BBC-TV um governante da Birmânia a ser entrevistado por um jovem locutor inglês (que aliás o tratava como um cão). E, a certa altura, o general diz “quanto à barragem que os chineses aqui queriam fazer, conseguimos impedi-los, dando-
-lhes outras coisas em troca”. Um exemplo a seguir.




Notícias relacionadas


Scroll Up