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A escola pública

Gritos estridentes. Extravasar não só alegria, mas toda a energia comprimida. Força de cérebros descomandados a trezentos quilómetros por hora. Saltos abruptos de um canto para o outro, de um amigo para outro, de uma brincadeira para outra.

Cristina Brandão Lavender
28 Out 2012

Os cantos e recantos da escola pública são invadidos pelo vigor das crianças. Cada criança da escola pública tem reações que se vão desajustando nos espaços que frequentam e que vão desajustando a sua psique. O espaço que é a escola e as deveria acolher para o ensino, passa de uma teoria, à realidade de um caos assustador.
Confinados àquele espaço durante oito horas seguidas, sem contar com o período da hora do almoço, os alunos tornam-se autênticas bombas atómicas desgovernadas. Nessa hora do almoço o pão – nosso de cada dia – voa por cima das cabeças como se fossem naves espaciais; os talheres são usados como armas de arremesso, a comida servida, senão comida, é também arremessada pelo ar ou à cara dos outros como munições de filmes que povoam o seu imaginário de efeitos especiais. Os gritos. Ai os gritos. Os gritos estão por todo o lado. Os encontrões, as correrias, os pés e os cotovelos em riste, as puxadelas de camisolas, de cabelos, entre outros sustos, são mensagens urgentes que nos enviam e que precisamos de ouvir e decifrar.
Não é uma questão de educação. Não é uma questão de controlo. Não é sequer uma questão de ordem. Educação, controlo e ordem são quase inexistentes, naquele e noutros espaços. Há quase uma completa ausência destas três vertentes. Este quase deve-se a uma excelente prestação de alguns pais, dos professores e dos operacionais de educação da escola pública destruída pelo Estado a partir do ano de 2008 .
Poucas são as crianças que têm atenção, controlo e educação. Poucos pais realmente se preocupam com os seus filhos e sabem o que eles precisam. A maioria delas vive com o pensamento num constante saltitar por diferentes direções, e o pensamento tem pouca permanência em lado nenhum. Entram em derrapagens consecutivas. Não têm espaços seus. Não têm horas suas. Não conhecem tempo e espaço, nem lei, nem ordem; adultos e crianças confundem autoridade, com autoritarismo; liberdade com libertinagem; umas crianças entram em queda livre, outras ficam apáticas e sem reação, perdidas. Seguem o exemplo dos pais que também não sabem o que fazem, não têm sequer tempo para o que fazem, vivem ao sabor do vento, sem norte. Não sabem onde estão, para onde vão, o que dizem e o que querem. As nossas crianças são náufragas no maior oceano conhecido – o da vida.
A escola com os seus professores e os operacionais de educação foram abandonados pelo Estado a partir do momento em que este denegriu o seu estatuto e lhes passou um atestado de incompetência perante a sociedade. Acabou a ordem. Acabou o ensino. Acabou a obrigação.
Os pais, com a cabeça cheia de ideias libertadoras, pensam que querem que os filhos, desde que nascem, sejam espíritos livres, mas não sabem o como. E elas gritam.
Os pais deixam-nas sem limites e fronteiras de que elas precisam. E elas, perdidas, gritam.
Têm acesso a tudo o que se pode. Exigem, batem o pé, batem na mãe, na tia, na avó, e gritam.
Dizem mal dos colegas, dos professores, dos diferentes, fazem chacota do ridículo e enquanto os pais acham graça, elas atacam e riem e gritam.
Não falo de uma escola. Não falo de um agrupamento. Falo do ensino em Portugal. Falo da maioria das crianças portuguesas que estão sós e gritam por socorro. Não lhes dão referências. Não lhes ensinam o sentir. Não lhes dão paredes onde se encostar quando estiverem cansadas. Não lhes deram a capacidade de calar, de criticar, de aceitar. A capacidade de ouvir o silêncio, de pensar e viver. Falo de futuros jovens e adultos que não vão saber o que fazer porque não lhes deram uma alma.
Alguns afirmam que a tecnologia inventada é o obstáculo. Importa deixar claro que a tecnologia é apenas uma ferramenta. A alma, o ser e o mundo devem ser a descoberta de cada um.
A escola pública luta para que seja tudo isto. Não deixemos a escola pública fechar. Não deixemos mais prisões abrir.




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