Fotografia:
Sem esperança?

Na generalidade, o povo português não gosta de política, não se interessa por política e, se fala, fala sobre ela de uma forma cáustica e com desprezo. Creio que o seu desinteresse se deve essencialmente à falta de qualidade da política e à mediocridade global dos políticos. E não me refiro só aos governantes, aos atuais ou a qualquer dos passados. Refiro-me a todos, num sentido lato e global. E a falta de qualidade não está só nos que exercem a atividade. Está em todos nós que fazemos parte da nação, porque somos pouco exigentes, pouco participantes e acríticos.

Hermínio Veiga da Silva
27 Out 2012

Não temos melhores políticos porque lhes pagamos mal (sim, já sei que agora toda a gente me vai cair em cima a dizer que eles são todos uns gatunos e aldrabões e ganham mais do que merecem, etc.), porque a oposição a única coisa que faz bem, e já agora a generalidade do povo, é dizer mal e deitar abaixo, independentemente de quem está no poder. E porque ninguém é responsabilizado por coisa nenhuma, mesmo nós, votantes, sentimos que a nossa missão acaba na hora do voto. E mesmo no uso deste, raramente o utilizamos com espírito crítico, mas quase sempre com a ideia clubística de que sempre votei assim e assim será. Basta ver que os que decidem as eleições são cerca de 20% de eleitores que flutuam entre os dois maiores partidos e muito raras variações, mantendo cerca de 80% dos que costumam votar um voto constante. Essa falta de sentido crítico limita uma maior variação dos votos e dá aos partidos habituais da alternância governativa um conforto que os impede de serem mais criativos e os fecha sobre eles mesmo, tornando-os numa espécie de tribo de privilegiados.
Há exemplos bastante graves da nossa conivência com a situação e a mediocridade atual, principalmente ao nível do poder local. A perceção e, em muitos casos, a certeza de situações pouco claras ou mesmo de corrupção comprovada, não impediu os eleitores de reelegerem algumas pessoas para os cargos que claramente usaram mal, ou infelizmente bem, mas em proveito próprio. Temos que ter a consciência de que tudo começa com o nosso voto. Afinal, nenhum governo nasce de geração espontânea, e é nessa altura que devemos ser críticos, analisar bem as propostas e avaliar da razoabilidade da sua execução.
Sinceramente, estou saturado do espírito de desistência que se apoderou do meu país. Estou cansado de viver numa comunidade que sabe diagnosticar os problemas e se mostra incapaz de apontar soluções, ou aponta soluções sem viabilidade, já tentadas, mas com resultados negativos, que nos empurraram ainda mais para a situação atual.
Fico confundido com a leveza com que se foge aos compromissos assumidos. Englobo nestes compromissos os que decorrem dos acordados com organismos internacionais, neste caso com a troika, a pedido do governo legítimo da altura, mas que compromete toda a nação, que eu julgo que só foi assumido porque não havia alternativa. Também englobo os compromissos eleitorais que ou foram elaborados com conhecimento da situação do país – e nesse caso devem ser forçosamente cumpridos – ou então apenas para ficarem bem num prospeto, sem a mais pequena ideia da sua razoabilidade, havendo neste caso incompetência ou má fé que merecem ser penalizadas.
O que me perturba também é este ambiente melancólico e triste que parece que se apoderou de todos nós, como se não houvesse nem réstia de esperança. A repetição sistemática da palavra crise faz ampliar o sentimento de mal-estar, fazendo adiar iniciativas e inviabilizando oportunidades de mudança, tirando às pessoas ânimo para um empenho forte na reabilitação da nação.
Precisamos todos de um suplemento de força que nos faça ser mais exigentes para com nós mesmos, com o poder, todos os poderes, para que essa exigência nos liberte desta situação e nos faça encarar o futuro com esperança.




Notícias relacionadas


Scroll Up