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Interior, fronteira ou eurorregião?

Muito antes da malfadada crise, o País falava do “Interior” como uma espécie de maldição geográfica: “lá” não há indústrias ou empresas de serviços; se tem empregos, é à custa do Estado. Por isso, a sua população é idosa, vivendo de pequenas pensões e das hortas, perdendo as novas gerações para o “Litoral”.

Pedro Freire de Almeida
27 Out 2012

Históricas são as razões deste desequilíbrio, a começar pelo isolamento e pelo predomínio das atividades agrícolas. Foi para salvar o “interior” que se construíram IP e autoestradas nas últimas décadas. Porém, o “interior” continua a ver encerrar escolas, tribunais, hospitais.
Muitos fundos da Comunidade Europeia terão sido aplicados para desenvolvê-lo, nestes 30 anos, mas a tendência parece manter-se e sempre pelas mesmas razões. Se agora há uma autoestrada que reduza tempos de viagem, os custos de combustíveis e das portagens cobram um preço excessivo para as empresas dependentes de transportes pensarem em se instalar. Também por causa da autoestrada, o Estado racionaliza recursos, fechando serviços um pouco por todo o lado, já que a “facilidade” das deslocações permite concentrar utentes nas localidades centrais. Maldição do Interior, parece, demasiado longe e dispendioso para investir e rentabilizar, suficientemente acessível para poupar recursos.
Com a dita crise será de temer que o “isolamento” se agrave ou que o Interior a sofra com o mesmo dramatismo com que a crise atinge, e atingirá mais ainda, o Litoral? Pode ser e pode bem ser o contrário.
Os problemas do Interior não são iguais, em Trás-os-Montes e nas Beiras, aos que afligem o Interior Alentejano. Mas com a disponibilidade de terras por cultivar, e por cultivar de modo eficiente, aquela parte da população do Litoral mais diretamente atingida pela crise, ainda ligada ao Interior pelos pais e avós, talvez arrisque uma mudança radical de vida, se calhar menos radical do que a emigração para o estrangeiro.
Recentemente, Paulo Azevedo, da Sonae, lembrou que 86% dos produtos agrícolas vendidos no retalho do grupo são de origem portuguesa, em contraste com o que se passava na altura em que começou a trabalhar: “É um sucesso fantástico. Muitos produtores já vendem para o estrangeiro, o que é maravilhoso.” (in Público, 18-09-12)
As muito faladas “oportunidades” proporcionadas pelas crises económicas provocam ajustamentos pela via difícil e menos proveitosa para os atingidos, em particular, e para a sociedade em geral. No caso atual, uma política coerente e assumida pode funcionar como estímulo e apoio para a “descoberta” do Interior.
Nesta crise, que afeta particularmente os países do sul da Europa, colocam-se limitações sérias à soberania nacional e à capacidade de iniciativa dos governos, seja por causa da moeda única, dos défices ou de outras entorses. Desenvolver estratégias para corrigir as assimetrias entre o Interior e o Litoral atenuaria os efeitos da recessão e do empobrecimento, numa primeira fase, abrindo perspetivas para o crescimento económico e para a criação de emprego. Com menos custos, económicos e sociais, do que se nada se fizer.
Como todos os agentes económicos sabem, os estímulos podem ser por via da simplificação burocrática, eliminação de taxas absurdas e do ordenamento racional das miríades de regulamentações. Se a isso se associar a colaboração ativa e interessada das autarquias e universidades, o processo só tem a ganhar em rapidez e dimensão. Mas pode-se fazer mais.
Nos amplos horizontes abertos pela integração europeia, uma dimensão mais discreta e não menos significativa se abriu: as eurorregiões transfronteiriças.
Mudar a relação do País para com o Interior é, também, mudar de perspetiva geográfica: aquilo a que se chama “interior” são terras de fronteira com regiões do “interior” espanhol. Em tempos não tão distantes, chegar à fronteira tanto era atingir o limite, por não haver continuação da estrada para o “outro lado”, como era aceder a uma passagem policiada onde as formalidades e demoras punham limites à livre circulação. Até a moeda passava a ser outra.
Felizmente, as barreiras físicas de antanho estão ultrapassadas, e as barreiras mentais à comunicação e intercâmbio também, como se vê principalmente na associação transfronteiriça de municípios da eurorregião Galiza-Norte de Portugal “O Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular” e que “tem como principal finalidade o desenvolvimento económico, social, cultural, tecnológico e científico das cidades e das regiões que o constituem”.
Num momento histórico em que o português é, novamente, impelido a procurar trabalho fora do País, podem ser criadas oportunidades para permanecer, fomentando uma racional ocupação do território, reforçando a cooperação e o desenvolvimento com aqueles que, vivendo os mesmos problemas, sempre foram mais do que simples vizinhos.




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