Fotografia:
Violência doméstica

1 De vez em quando, surge o escândalo: determinada mulher foi morta pelo companheiro ou por aquele de quem se tinha separado. E a sociedade desperta, então, para a realidade da violência doméstica. Esta, porém, não existe apenas quando o resultado é a morte nem vitima apenas a mulher. Há casos – talvez mais raros ou menos conhecidos – de homens para quem a vida em comum é um autêntico inferno. Como há idosos e crianças a serem constantemente vítimas de maus tratos. E atos de violência entre cônjuges e ex-cônjuges às vezes têm começo no tempo do namoro. 

Silva Araújo
25 Out 2012

2. Platão deixou escrito que «todas as pessoas querem ser felizes». Não consta do elenco dos direitos do homem codificados pela Organização das Nações Unidas, mas a verdade é que todo o ser humano tem o direito de ser feliz e que cada um tem o dever de contribuir para a felicidade dos outros.
Quando duas pessoas decidem partilhar a vida, passando a viver em comum, fazem–no a pensar na felicidade. Talvez mais na própria do que na alheia; talvez mais em receber do que em dar, o que é um erro de que podem surgir consequências trágicas.
A decisão de partilhar a vida com alguém, passando a viver com essa pessoa, deverá ba-
sear-se no amor, e este é o contrário do egoísmo. Amar, verdadeiramente, é pensar no bem da pessoa amada, é preo-cupar-se com o bem da pessoa amada, é querer viver para a pessoa amada, é querer servir a pessoa amada.
Mais do que a pensar na própria felicidade, quem decide partilhar a vida com outro ou outra há-de ter a preocupação do bem e da felicidade do outro. Só assim é que a palavra amor atinge o autêntico significado.
Amar alguém é aceitá-lo como ele é; com as suas qualidades e os seus defeitos. É respeitá-lo na sua dignidade de ser humano e de filho de Deus. É viver para ele e não à custa dele.
Viria a propósito recordar o texto de S. Paulo, no capítulo 13 da I carta aos Coríntios, proclamado muitas vezes na celebração do casamento católico. «O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta». Deveria ser este texto, que reproduzi parcialmente, a carta magna das pessoas que efetivamente se amam.
Quando o amor dá lugar ao egoísmo; quando um dos membros do casal se preocupa com a própria felicidade e não com a felicidade do outro surgem, com facilidade, manifestações de desamor que tornam um inferno a vida em comum. Começa pela falta de respeito pelo outro, considerado muitas vezes como um ser subalterno, como algo de que se é proprietário. Surge então um sem número de agressões que, às vezes, culminam na morte do outro.
 3. É bom ter presente que a violência física é uma, mas não a única, forma de violência. A linguagem que se usa; os gestos de vingança; a forma como o outro é tratado mesmo sem lhe tocar sequer com o dedo podem consubstanciar formas de violência que magoam terrivelmente o outro. Não há quem, sem empunhar uma arma, fuzile com o olhar?
 
4. Vítimas do mau ambiente em casa – dos gestos de desrespeito ou de desprezo, de uma linguagem que fere, de um clima que magoa – podem ser os diversos elementos do agregado familiar. Fala-se muito da situação da mulher, mas a verdade é que a violência doméstica também pode atingir o marido, e grandes vítimas do mal-estar entre o casal são os filhos.
 
5. Casar é, em princípio, um direito da pessoa. Todavia, quem não está disposto a criar bom ambiente em relação à pessoa com quem decide partilhar a vida e aos filhos que da união entre os dois resultarem, não deveria usar o direito de casar. Não entendo um casamento que não seja o compromisso de fazer quanto de si depende para que sejam felizes o cônjuge e os filhos do casal. Quem quiser fazer da vida um inferno que fique nesse inferno sozinho.




Notícias relacionadas


Scroll Up