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Três desejos

Esfreguei três vezes a lamparina e adquiri imunidade contra seres robotizados.
Tenho muitas dúvidas quanto à sua proveniência. Para mim, para os meus botões e para as teclas deste meu portátil, fica registada a hipótese de serem de inóspita origem alienígena. Bastou-me observar as suas faces angulosas, os portes hirtos, sisudos, magros de ruindade, completamente alérgicos ao riso, ao descanso. Com andar militarizado, nem piscam olhos aos flashes dos jornalistas.

Cristina Brandão Lavender
25 Out 2012

Tristes máquinas inspecionam e sancionam a felicidade e a propriedade física inteletual, social e humana. Rapidamente nos querem colocar dentro da pasta preta fossilizada, portadora de armas aniquilantes de sonhos condizentes com o fato e gravata. Perigosamente, vêm mascarados de intenções salvadoras, cobertos num preto vestir, fingimento de sobriedade, verniz de honestidade, sombras da realidade que desconhecem.

Totalmente imune.

Vêm, dizem eles, defender-nos do que perigosamente classificam de “pátrias” a saque. Vivem maquinalmente enfiados em relatórios, números, papéis, bites, gigabytes de informação que recuso conhecer. Possuem vivência em trânsito, por aeroportos deste planeta, ar condicionado, conforto standard, à cata do euro que lhes fugiu das contas bancárias na forma de eletrões e fotões. Pagos, a peso de ouro, por multinacionais associadas sob a bandeira “de unidade europeia.”

A importância dada nestas linhas serve apenas para lhes comunicar a minha completa resistência quanto às repetidas visitas inoportunas. Enfim, recuso-me a reconhecê-los como humanos. Agora, imune.

Não sou apologista do facilitismo, do roubo descarado, da incompetência, da aldrabice, da idiotice, assim como de outros “talentos” que lavram por aí há já muitos anos. Temo, no entanto, que estes últimos sejam efeitos secundários da doença letal.

 Imaginem os vampíricos de palhinha em punho a sugar-vos os lóbulos cerebrais por um buraquinho circular feito à broca BLACK&DECKAR no parietal. Nojento, não é? Trazem palhinhas que cheguem esses vendilhões de patriotismo, de ordem e totalitarismo. Irradiam magneticamente recuperação económica, sociedade igualitária e justa. Trazem na bagagem este vírus de propriedades surpreendentes. Entre elas, e para além da lavagem cerebral, detetaram-se casos de massificação de opiniões em noites de lua cheia, alastramento de sentimentos de raiva e impotência nos povos que começam a viver condições com as quais não conseguem lidar – por agora.

Manter a minha sanidade é imperativo, a par do desejo de trabalhar continuamente com o génio para encontrar a vacina contra qualquer forma de totalitarismo. E se não for pedir muito, libertar o génio da lâmpada para, livremente e criativamente, escolher como viver, após as três esfregadelas na lamparina que o aprisionava.

Três desejos, génio meu:

“Manter a minha imunidade;
Trabalhar contigo, encontrar a vacina contra qualquer forma de ditadura;
Libertar-te para que, livremente, possas escolher como viver.”




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