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Uma família em crise

A crise portuguesa tem dois protagonistas: o sr. Aflito e o sr. Trocas. O sr. Aflito é casado e tem dois filhos. Este pai de família precisou de pedir mil euros e, como não encontrasse ninguém que lhos emprestasse, porque o seu salário e da mulher não davam grandes garantias de cumprimento, encontrou apenas o sr. Trocas que lhos emprestou por um mês a 10% de juros. Ficou logo a dever 1100 euros ao sr. Trocas.

Paulo Fafe
22 Out 2012

No mês de pagamento, o sr. Aflito só pôde pagar 200 euros e pediu ao sr. Trocas se lhe dava mais um mês para pagar. Concordou o sr. Trocas e o sr. Aflito ficou a dever 900 euros mais 90 de juros. No  segundo mês, ficou a dever 700 +70 de juros, no  terceiro mês 500 +50 de juros, no quarto mês, 300+30 de juros, no quinto mês 200+20 de juros e, por fim, 100+10 euros de juros. Feitas as contas, o sr. Aflito, em vez de pagar 100 euros de juros pelo empréstimo, pagou 370 o que equivale a dizer que o sr. Trocas emprestou-lhe 1000 a 37%. Se tivesse pagado tudo em menos tempo! –  lamentava-se o sr. Aflito.
Durante estes meses, os filhos, um rapaz e uma rapariga, reclamavam diariamente porque lhes foi imposto fazer economias de luz, água, alimentação, mesadas, etc. Ao terceiro mês, o filho disse aos pais: não paguem. Quem emprestou é porque não precisa. Os pais fizeram que concordaram e começou a faltar na mesa, arroz, feijão, massa, carne, e os filhos reclamavam: a comida é cada vez menos! E há de ser cada vez menor quando as reservas que tínhamos na despensa se esgotarem, acrescentou o pai. Não pagámos e agora não há quem nos venda nada a não ser a dinheiro.
A filha disse: vendam o ouro que têm no guarda-joias da mãe. Mas o ouro vendido não dava para mais de dois meses, a continuar a gastar como a filha queria. Ela tinha os seus compromissos com as amigas para ir a alguns concertos e o rapaz também tinha dito que iria acampar para o princípio das férias. Negoceia a dívida, procura juros mais baixos. Com quem? Só o sr. Trocas é que nos abre a bolsa! Perante as exigências dos filhos, que cada vez reivindicavam mais, até já berravam e quando berravam faltavam ao respeito aos pais, estes sentaram-nos à sua beira e mostraram-lhe as contas: os vencimentos dos dois, as despesas com água, luz e gás, a renda de casa e os gastos com as propinas dos dois. Somaram, subtraíram e os filhos viram que não dava para irem aos concertos ou acampar com os amigos.
Então como vai ser? perguntou a miúda de lágrimas nos olhos. Que vou dizer às minhas amigas, mãe? Vou ter de lhes dizer, estou no limiar da pobreza, não posso ir convosco? Quando pagarmos a dívida, disse-lhe a mãe aconchegando-a a si, e consequentemente nos livrarmos dos juros da mesma, vamos poder respirar um pouco melhor porque são 200 euros que ficam; mas se continuarmos a gastar para lá dos nossos vencimentos, nunca sairemos desta aflição porque quem gasta o que não tem a pedir vem.
Mas não tinham dinheiro a juros? Tínhamos, mas onde eles já vão! Não me conformo com isto, disse o rapaz, vou imigrar ou emigrar, vou ver se ganho a vida noutro sítio. Isto aqui nem dá para a sopa. A mãe chorosa disse-lhe que muito lhe custava ver o filho partir, mas sentia que o filho tinha razão. E foi com lágrimas amargas que o viu abandonar a casa onde nascera à procura de melhor destino. A filha ficou, licenciou-se, mas está desempregada, quer casar, mas não tem dinheiro, vive com os pais que continuam a fazer contas aos cêntimos porque já se não lembram de contar euros.




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