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Braga, cidade empedernida?

Ainda hoje recordo uma das medidas mais emblemáticas, no que concerne à revitalização das cidades, que António Guterres tentou incrementar, aquando a sua passagem pelo XIV Governo como primeiro-ministro: o Programa Pólis. Este programa estabelecia uma parceria entre o Governo e as Câmaras Municipais que visava intervir nas vertentes urbanística e ambiental das cidades para torná-las mais funcionais e mais atrativas.

Armindo Oliveira
22 Out 2012

Abrangia fundamentalmente quatro áreas de intervenção: requalificação urbana; promoção da multifuncionalidade; majoração da qualidade ambiental com destaque para a revitalização das margens dos rios; ampliação das áreas verdes.
Este programa, nas entrelinhas, significava corrigir a asneirada grossa cometida pelos presidentes das Câmaras Municipais no crescimento, desordenado, patético e cimenteiro, das suas cidades, ao longo do período democrático. Nesta matéria, cometeram-se e cometem-se ainda hoje os maiores disparates no ordenamento das cidades, no desmoronamento do património construído, manchas estas que ficarão gravados para sempre como um testemunho falso de um tempo modernista em que era suposto haver debate, reflexão, respeito pela história e boa aplicação do dinheiro.
Era expectável que o espírito e a ideia valorativa constante no Programa Pólis tivesse sedimentado nas cabecinhas dos nossos autarcas e servisse de alerta, ao menos, para futuras intervenções ao nível da requalificação ou da melhoria urbanística nos centros históricos, zonas extremamente delicadas e sensíveis, dado que a história e as memórias, bem impregnadas fisicamente nas construções, nas calçadas, na monumentalidade, não podem ser apagadas e muito menos violadas por um novorriquismo parolo que exala uma aversão inaudita ao medievo e ao vetusto.
Braga não é uma cidade qualquer deste país. Braga tem uma identidade e uma dignidade bem vincadas na história da fundação do país, na história da Península Ibérica e da própria Europa, cujas raí-zes estão mergulhadas nos tempos áureos do império romano. Era, por isso, que se denominava de Augusta, que quer dizer divina. Esta carga histórica de grande valor acrescentado deveria servir de motivação e de modelo aos novos senhores da urbe na gestão racional e cuidada do património artístico e cultural que ainda hoje existe na cidade. Braga merece, tem que ter à frente dos seus destinos, gente capaz de entender e respeitar o legado histórico que recebeu dos seus antepassados. Não é aceitável que se mexa e se remexa nas entranhas da cidade para se aproveitar uns dinheiros provenientes de um qualquer quadro de apoio comunitário ou conduzir a cidade para o campo dos meros interesses económicos que só têm o condão de a ferir na sua nobreza, no seu caráter e no seu passado. As entranhas são o depositário da alma dessa gloriosa Brácara Augusta que iluminou bem alto a parte noroeste da Península. Todo o cuidado é pouco, quando é necessário preservar a autenticidade e a sensibilidade da urbe milenar. Estas requalificações não podem ficar à mercê das modas, dos caprichos eleitorais e de gente que só se afina pelo diapasão das mais-valias financeiras.
Não é com a extração e substituição do empedrado das ruas, com a criação de novas eiras graníticas e com a liquidação metódica de árvores emblemáticas que adornavam as praças da cidade que a requalificação urbana se enquadra numa perspetiva de atratividade, de funcionalidade e de melhoria dos espaços públicos.
Em vez de se andar com arranjinhos urbanísticos, oportunistas e saloios, que em nada acrescentam à valorização da cidade, dever-se–ia intervir com precisão e acerto na reconquista do Campo da Vinha como uma grande praça verde e florida em vez da trapalhada arquitetónica que lá se implantou sem jeito. O mesmo poderia acontecer na Avenida Central, onde aquele jogo insalubre de tanques e de pavimentação de pedra, daria lugar a um jardim público airoso como outrora existiu.
Há tanto onde intervir com qualidade e com necessidade. Se há dinheiro a mais nos cofres da Câmara Municipal, vindos da União Europeia, que se invista, desta vez, nas freguesias suburbanas onde as assimetrias de desenvolvimento e de modernidade são notórias em relação às condições que existem nas freguesias urbanas. A cidade não pode isolar-se de forma autista da sua periferia.
A cidade de Braga, apesar deste “ritual destrutivo” imposto por um modelo cosmético arquitetónico que tem vindo a ser incrementado ao longo destes anos de democracia, ainda é uma cidade bonita, monumental e atrativa.




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