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E, então, os pecados capitais, senhores?

O papa São Gregório Magno (540 – 604), a partir das cartas de S. Paulo, enunciou os sete pecados capitais que hoje estão inscritos no catecismo da Igreja Católica: gula, avareza, soberba, luxúria, preguiça, ira e inveja. Para combatê-los, a mesma Igreja criou as vulgarmente designadas virtudes, para servirem de antídotos contra os males causados por estas paixões mundanas.

Fernando Pinheiro
21 Out 2012

É assim apregoado que, contra a gula, se deve usar a temperança; contra a avareza, a generosidade; contra a soberba, a humildade; contra a luxúria, a castidade; contra a preguiça, a diligência; contra a ira, a paciência; contra a inveja, a caridade. Todos os que tiveram educação catequética ficaram servidos de um guia espiritual, indispensável para combater os perigos de uma sociedade que evoluiu muito rapidamente para o cientismo, o racionalismo de base pragmática e materialista, e para o individualismo de matriz hedonista e egocêntrica.
Não admira, pois, que, agora, a técnica e a ciência sobrepujem a religião e a metafísica, que o estudo das humanidades decaia, que a espiritualidade interior estiole, e que a educação das paixões, por que tanto se bateram doutores da Igreja e reformadores antigos, seja abandonada. A ideologia vai cedendo ao relativismo laxista e permissivo, e o livre arbítrio, condicionado pela massificação da sociedade contemporânea, deixa de poder julgar de forma judiciosa toda e qualquer questão moral. Por sua vez, a cultura, em geral, orienta-se cada vez mais para os sentidos, se não mesmo para as glândulas, já que nesses meios se fala tanto de adrenalina.
Os tempos que correm são, pois, de desenfreado materialismo, e é o poder infrene das paixões que domina o mundo, atrás das quais cada vez mais homens e mulheres correm, e por vezes se atropelam, na ânsia de satisfazerem, mais do que as suas necessidades imediatas, todos os seus prazeres, nalguns casos conseguidos de modo vicioso ou compulsivo. Esta decadência sócio-moral torna-se sistémica, pois a secularização da sociedade deliu quase por completo a noção de pecado, e o relativismo cultural dos novos tempos retirou valor ao conceito de culpa.
Todavia, tanto a consciência do pecado como a da culpa são essenciais para a formulação dos juízos de valor que classificam a natureza dos nossos atos, não só à luz de uma ética própria, mas também à luz das obrigações contraídas perante os outros e a sociedade. A perda do sentido da transgressão e a ausência de julgamento impedem o homem contemporâneo de identificar o erro em si, e impelem-no a endossar aos outros a origem do mal ou males que o possam atingir na sua individualidade e na sua liberdade. Está bom de ver que os pecados capitais arrastam o homem para o materialismo e, frequentemente, o cegam, e as virtudes que se lhes opõem orientam o homem para a espiritualidade, e o pacificam.
A esta crise moral que afeta profundamente as sociedades ocidentais veio juntar-se uma grave crise material que está a pôr em causa a segurança sócio-económica das pessoas e dos próprios estados. Quer num campo quer noutro, as paixões destrutivas são responsáveis pela manifestação de males terríveis que atingem a humanidade de forma dramática. Veja-se o caso da avareza dos especuladores financeiros que, por causa de uma sede incontrolável de dinheiro, atiraram grandes bancos para a falência, tendo alguns deles sido resgatados pelos Estados à custa do dinheiro dos contribuintes.
A humanidade seria mais próspera e estaria mais defendida destas crises económicas que assolam os indivíduos e as famílias se a vida pública e privada tivesse mais virtude e menos paixão. A corrida ao dinheiro que atualmente se verifica no mundo lembra as corridas que já se fizeram, noutros tempos, às especiarias, aos escravos, ao ouro, às matérias primas… Todas esses corridas acabaram mal para quem as praticou porque, se por um lado, permitiram o enriquecimento de alguns, por outro causaram o empobrecimento geral da população, devido ao abandono do esforço produtivo.
Esta economia viciosa, centrada na maximização do lucro e no locupletamento individual, deveria ser substituída por uma economia virtuosa, centrada na justiça social e na equitativa distribuição da riqueza nacional. Mas, infelizmente, tal evolução não parece possível.
O Harpagão de Molière metia toda a fortuna num cofre, que depois escondia no quintal! Onde metem o dinheiro os avarentos dos novos tempos?




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