Fotografia:
Boa notícia (2)

O anúncio da mensagem continua muito racionalizado. Continuam a confundir os géneros de anúncio, o que significa que não têm noção do que eles representam. Continuam a refugiar-se em considerações teóricas para não se comprometerem pessoalmente, quando os ouvintes precisam é de exemplos vivos. Quem anuncia o evangelho não se pode refugiar sistematicamente em considerações teóricas nem escusar a expor-se a si próprio como exemplo vivo. Se não for um exemplo vivo, está a perder o seu tempo. A pregação sempre teve uma dimensão de história da vida.

M. Ribeiro Fernandes
21 Out 2012

Os agentes da evangelização não estão habituados a ser confrontados com a doutrina que pregam. Falam de alto e de longe do povo. Refugiam-se no ritual e na distância institucional reservada ao clero. Nem se dão conta de que isso já não convence ninguém. A autoridade de mestre está inflacionada: há muitos mestres e há pouca sabedoria. Se querem ser ouvidos, a sua intervenção tem de partir da sua experiência de fé. Sem esse testemunho pessoal dificilmente se poderão aproximar dos corações dos ouvintes, que são humanos como eles.
Foi a homens reais que Deus se revelou. E, se essa revelação não tiver impacto na vida deles, então a sua pregação é inútil. A forma de ação evangelizadora tem de mudar.

1. Um dia, estava um pregador a falar de um assunto que era difícil de pôr em prática na vida. Mas, à partida, ele tinha uma vantagem circunstancial: falava em tom de diá-logo, no meio do povo e ao nível do povo. Então, um dos ouvintes pediu a palavra e perguntou: como é que faz isso na sua vida?
O pregador fez silêncio e teve que descer humildemente à sua realidade pessoal e dizer como procurava agir concretamente na sua vida. Isso obrigou-o a ser mais humilde e a não pretender carregar sobre os ombros dos outros aquilo que não conseguia carregar sobre os seus. Os ouvintes aceitaram esse testemunho e, desde aí, vieram mais ouvintes.
O que habitualmente acontece é que o pregador fala de cátedra e os ouvintes não têm sequer o direito de dar o seu testemunho em assembleia, como recomendava S. Paulo que se fizesse nas reuniões de culto. É por isso que esse modelo de prédica já não tem impacto. Falta-lhe vida e participação.

2. Os planos de ação, em que gastam tanto tempo, podem ser importantes, mas se lhes falta a alma da vida real e o calor do testemunho pessoal, nada valem. Refugiar-se em planos de ação pastoral pode ser uma forma tranquilizadora de racionalização, um mecanismo de defesa para evitar expor-se ou para evitar encontrar-se com a vida real, que acontece para além desses planeamentos. Admito que deve haver planeamento, mas que ele seja flexível e o diagnóstico seja o mais correto e real. Se quem pretende comunicar não conseguir entrar no coração dos ouvintes, perde o seu tempo a fazer planos de racionalização ou de acusação dos outros, porque a evangelização não é um ensino, mas um anúncio e um diá-
logo entre duas pessoas. A objetividade doutrinal é importante, é como o esqueleto para o corpo. Pode significar uma herança de fé e uma pertença a uma comunidade, mas a subjetividade da sua experiência de vida e a forma como a comunica é sempre mais importante. A mensagem só passa através da comunicação afetiva, porque é essa a trajetória da dimensão humana.
E, se alguém pensa que a dimensão subjetiva na transmissão da fé não é importante, está implicitamente a dizer que o apóstolo não é importante, que é dispensável, que basta a doutrina e a organização pastoral, que basta ligar uma cassete ou um cd.

3. Por conseguinte, para além de anunciar, é preciso saber comunicar. E saber comunicar tem as suas regras técnicas e as suas exigências pessoais. Há quem diga que basta o carisma e o exemplo pessoal. É verdade que são fundamentais, mas não se pode ser tão temerário que se desprezem os bons modos de o fazer. Se até para ensinar é preciso apoiar esse saber na qualidade da relação pedagógica, quanto mais para evangelizar, que é muito mais do que ensinar.
De entre essas regras de comunicar, destaca-se a importância da subjetividade de quem comunica, a avaliação do impacto da mensagem, a alegria que deve caraterizar o anúncio da mensagem, a diferença entre adaptação e alteração da mensagem, o saber ler o significado dos acontecimentos (porque a evangelização é um acontecimento na História da humanidade e na história pessoal) e também o saber discernir entre o que é palavra do homem (que fala) e Palavra de Deus (que é anunciada). Há dois critérios fundamentais para esse discernimento que os Apóstolos usavam na sua ação: o testemunho e a fidelidade. O testemunho era a sua grande força, porque podiam sempre dizer que foram testemunhas do Mestre; e a fidelidade era proclamarem apenas o que o Mestre disse e fez, serem a continuação da sua voz, do seu rosto, do seu sentimento, do seu coração.
Quer dizer que o anúncio da mensagem deve ser sempre mais fenomenológico e histórico do que racional e escolástico; e que deve respeitar a regra de ouro da ação humana, que dá para todas as profissões: a qualidade exige preparação.




Notícias relacionadas


Scroll Up