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Elogio ao Velho do Restelo

Conforme o vendaval da crise assola um país, revela-se um inesgotável rol de crimes financeiros, inconcebíveis desregulações, falhas legislativas e políticas grosseiras. Cenários de conto de fadas duram até ao triste dia em que se desfazem de podre. Inevitavelmente, as medidas anticrise assumem o cenário inverso duma vida de suor e lágrimas, purgativa dos excessos do passado.

Pedro Freire de Almeida
20 Out 2012

Apesar de sempre se terem feito ouvir raros profetas da desgraça, as cassandras do tempo
atual, que na nossa versão caseira chamamos de “velhos do Restelo”, essa figura tão nobre e sensata quanto distorcida e vilipendiada com que Camões enriqueceu o imaginário nacional. Aos atuais nunca faltou tempo de antena em horário nobre, nem audiência. E porém… Fosse um problema exclusivamente português, aguentaríamos bem mais esta machadada no nosso amor-próprio, mas trata-se dum mal geral. Ou sistémico, como gostam de dizer os entendidos.
Um dos mais reputados gurus da Economia lamentava-se: “Estou cansado de ser Cassandra. Gostaria realmente ganhar por uma vez do que ter razão quando o desastre chega, como previsto. Preferia que tomassem em consideração os meus argumentos para prevenir o desastre.” (Paul Krugman in The Guardian, 03-06-12)
Os mercados são criaturas excessivamente púdicas para se exporem ao escrutínio, os governos são dados a melindres quando contrariados, reguladores e outras entidades que aplicam a justiça veem com irritação as críticas e as avaliações ao seu desempenho. Porque nos espantar, enquanto cidadãos, que nos encantássemos com as sereias do consumismo e troçássemos dos velhos do Restelo?
O economista Bradford DeLong, por seu lado, salienta o acerto das análises suportadas pelo conhecimento da história económica e financeira nas previsões ao longo dos últimos 5 anos. E põe em causa as políticas e previsões que as ignoraram, pois são as que diziam “que não haveria recessão, ou que a recuperação seria rápida, ou que os problemas reais da economia eram estruturais, ou que apoiar a economia produziria inflação (ou elevadas taxas de juro no curto prazo), ou que a austeridade fiscal imediata seria expansionista” (in Público, 28-06-12).
É reconfortante partilhar a ignorância dos raros sábios que confessam a perplexidade sobre a crise e o seu imprevisível desenvolvimento. Por sábios, entenda-se políticos, economistas ou financeiros. Já as certezas dos sábios que “sempre” entendem tudo podem ser perturbadoras: quando explicam as causas da crise, quando avançam diagnósticos e curas, fica-se com a impressão de que muitos deles andaram ausentes nas últimas décadas.
Como se outros economistas, financeiros e políticos, mas com os mesmos nomes, tivessem ocupado relevantes cargos em instituições financeiras, grandes empresas ou partidos políticos com assento no governo dos seus países. Porque, na altura, não foram capazes de perceber o que se estava a passar.
Fazendo-se a crise sentir no aumento do desemprego, no aumento dos impostos e contribuições e na diminuição do consumo e investimento público e privado, há a facilidade de reduzir tudo a problemas económicos e financeiros cuja solução tem de vir pela mesma via económica e financeira.
E os especialistas da área, com espantosos currículos nos governos, grandes empresas, bancos centrais, universidades com vários nobéis no corpo docente, têm sempre sua explicação, previsão e solução na algibeira. Mesmo aqueles, a imensa maioria
aliás, que foram tão surpreendidos pela chegada e pela grandeza da crise, como o comum dos mortais. Também eles, ou principalmente eles, ridicularizaram os “velhos do restelo”.
Mas o que o avolumar da crise vai expondo de forma evidente é a realidade de vivermos numa economia assente numa indústria financeira especulativa, tanto mais perigosa quanto apoiada em tecnologias que dão a ilusão dum crescimento ilimitado, gerando lucros fabulosos sem utilidade económica. Paradoxal?
Talvez não, se a crise for, antes de mais, expressão da “estupidez sistémica” de que fala Bernard Stiegler, e que resulta da hegemonia do marketing e do imperativo do consumismo. Como resultado, a crítica perde o seu valor depurativo, privilegia-se o insulto ou a chacota, tanto a ação política como a gestão empresarial submetem-se ao curto-prazo e à propaganda, perdendo-se o sentido institucional, facilitando o anonimato dos decisores, tornando irrelevante a ética e a solidariedade que não tenham impacto mediático.
Num universo assim, o êxito e o escândalo medem-se pelo número de visualizações no facebook ou no youtube. Num universo assim, quem tem pachorra para escutar algum “velho do Restelo” debitar factos e argumentos?




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