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O ataque de um punhado de gatos

Desde o primeiro dia em que este Governo tomou posse, não têm parado de se multiplicar as críticas acérrimas à sua composição e atuação. Com a redução de ministros e a extinção dos governos civis – de que já ninguém fala – logo começou a saga das desconsiderações.

Narciso Mendes
19 Out 2012

Cumpre ao maior partido da oposição, procurar por todos os meios, encontrar matéria para afrontar o Governo e lá vai dando achegas ao que é preciso ser feito, mesmo sobre as situações que o próprio levou até aqui. É que, quando o seu líder vem dizer, num tom populista, para cortar nas gorduras do Estado, nas PPP, nas fundações, nos ricos e nos deputados do país, deve estar esquecido que esses problemas existem, também, graças à atuação dos anteriores governos do seu partido.
Este Governo tem pela frente uma agenda de reformas impostas de que o país necessita e em que todos parecem estar de acordo. Porém, quando pretende reformar a justiça, logo juízes, advogados e sindicatos se levantam num coro de protestos incessante; ao levar a cabo a da educação, os professores, país e alunos se enfurecem contra; e na reforma do mapa autárquico, todos parecem querer que o quadro se mantenha e nada avance.
O mesmo tem sucedido com a política dos cortes, em que se sucedem manifestações contra a austeridade, mas em que são poucos os caminhos apontados a não ser as palavras de ordem como “rua com o Governo” e “fora a Troika”, acompanhadas de impropérios inqualificáveis que já esgotaram o dicionário dos “palavrões” dirigidos aos políticos e ao Governo.
No entanto, o mais grave disto tudo passa-se no seio da coligação, principalmente no PSD, que um dia alguém apelidou de “saco de gatos”. De facto, as maiores e mais profundas críticas vêm do seu seio, onde uma série de notáveis como Jardim, Marcelo, Capucho, Pacheco e Mendes, constituídos num autêntico “eixo do mal”, vêm tecendo os maiores elogios fúnebres ao Governo do seu próprio partido. E os palpites são de tal ordem que nos passam a ideia de que o país, nas mãos destes senhores, já estaria resgatado e a usufruir dos mercados financeiros.
Passos Coelho tem sobre os ombros, neste momento, dez milhões de interesses, egoísmos e outro tanto de adversários políticos, mas os seus maiores inimigos estão no seio da sua própria estrutura partidária. São esses, e não o PS, PCP ou BE, que lhe irão provocar a derrocada e tudo farão para ser antes do tempo. Não fosse António José Seguro não estar devidamente preparado para o PS formar governo, já os eleitos do PSD estariam nas bancadas da oposição, com tantos dislates e retiradas de apoio dos seus correligionários à sua própria governação.
No meio disto tudo, há um CDS que está a sustentar a coligação a todo o custo e que, calmamente, tem procurado manter uma postura sóbria, embora não deixando de transparecer, de quando em vez, as suas ideias quanto a matérias de cariz ideológico, em que colidem com as dos sociais-democratas, graças a Paulo Portas e à sua estratégia para ficar bem na fotografia governativa.
A juntar a esta “cena”, como dizem os jovens, ainda há algumas figuras e figurões, a viver à sombra do Estado, que nas comemorações do 5 de Outubro pugnaram por coragem contra o medo, quando a única que conheceram foi a de dar, esbanjar, deixar engordar o Estado, dando empregos a “boys”, sem receios, pouco se importando com o sentido patrió-tico do termo.
Uma coisa é certa: em comparação com o PSD, os socialistas sempre se têm mostrado mais unidos em torno da figura que os representa. Nem quando Sócrates era primeiro-ministro de Portugal, com toda a carga de desconfiança que o envolveu, se pressentiu uma onda maledicência, no seio do partido, como esta que se verifica em relação a Passos Coelho. Se todos os sociais-democratas não contiverem as suas críticas ferozes, mas antes procurarem, construtivamente, ajudar o Governo e Portugal a sair da crise, bem poderão pensar, a seguir, passar mais oito ou dez anos nas bancadas parlamentares a atacar o governo do PS, à espera do seu novo “messias perfeito”, enquanto a governação aguarda, novamente, por ser conquistada, não por um punhado de gatos, mas por um novo PSD coeso e unido em torno do seu líder.




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