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Os adeptos da onça

Como já escrevi aqui mais de uma vez, sou um adepto incondicional do “tribunal” (conhecido pelos “leigos” por “bancada nascente”). Adoro aquele ambiente efervescente em que de vez em quando sai um berro cheio de humor, outras vezes uns assobios irritantes mas, quase sempre, onde se aplaude e se incentiva a equipa com a força daquele braguismo entranhado, vindo do fundo do coração e das memórias antigas trazidas do estádio 28 de Maio (ainda sou desse tempo). Ali até o palavrão tem piada; até os cumprimentos atrevidotes à mãe do árbitro nos divertem.

Manuel Cardoso
18 Out 2012

No entanto, há uma espécie de cromos que eu dispensava de bom grado no estádio AXA. Com as cadeiras fixas para toda a época, cabe ao acaso decidir quem são os vizinhos que nos calham na rifa. Ora, bem perto da minha cadeira reside um desses maldispostos crónicos, a fazer lembrar os célebres “velhotes” dos marretas, que passam o jogo todo a resmungar contra a própria equipa. Se estamos a ganhar, sua ilustre sapiência acha sempre que podia ser melhor; se não estamos a ganhar é um tormento. Naquela pobre a atormentada cabeça, os nossos jogadores parecem ser os mais incompetentes do mundo. Umas “amélias”, como ele gosta de os apelidar. É claro que se de repente uma dessas “amélias” se lembra de marcar um golo, sua ilustre sapiência salta da cadeira como se um cão lhe mordesse os fundilhos e celebra como se acabasse de lhe sair o totoloto. Mas é sol de pouca dura; basta cedermos um lançamento lateral para sua ilustre sapiência voltar àqueles lamentos irritantes. Isto, ao longo de noventa minutos, meus caros, satura.
Eu até entendo que haja pessoas assim, sempre insatisfeitas, sempre a querer mais e melhor; esta atitude até tem o seu lado positivo. No entanto, não consigo entender que espécie de prazer tem este tipo de adeptos em ir ao futebol. O que é incrível é que estes “cromos” normalmente não falham um jogo! Podem passar o jogo todo a vociferar, podem até jurar a pés juntos que assim nunca mais põem os pés no estádio mas, na semana seguinte lá estão eles de novo, todos equipados a rigor para passar mais noventa minutos a reclamar contra as suas “amélias” preferidas.
Pessoalmente, já deixei de me indignar com isto. Prefiro divertir-me com as contradições desta gente. Mas confesso que às vezes apetecia dizer a estes adeptos que mais valia ficarem em casa. É que se o meu vizinho de cadeira até tem piada com as suas contradições, há outros que constituem a meu ver uma outra espécie de “cromo” bem mais irritante: é aquele que já adquiriu aquilo a que se pode chamar o “tique de clube grande”; é aquele que assobia sempre que a equipa não chega ao intervalo a ganhar. Eu nunca aprendi a assobiar e nunca senti necessidade disso porque não consigo encontrar vantagem nenhuma nesse tipo de atitudes. Haverá alguma equipa no mundo que passe a jogar melhor porque o público assobia? Penso que não. Por isso é que eu digo: se é para assobiar, fazem um favor ao SC de Braga se ficarem em casa.




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