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Figueira sem figos

1 Lê-se no Evangelho de S. Marcos (11, 11-26) que, um dia, Jesus, tendo ido a uma figueira à procura de figos, verificou que naquela árvore apenas existia abundância de folhas. Há quem dê uma interpretação simbólica a este texto evangélico. Neste sentido, a figueira era o povo de Deus e a sua prática religiosa. Vivia uma religião feita de exterioridades. De muita conversa, de muitos penduricalhos, rica de gestos exteriores. Mas, quanto a frutos de conversão, nada. Não mudava as pessoas. 

Silva Araújo
18 Out 2012

2. Também hoje há figueiras sem figos. A religião do folclore, das fardetas, das grandes concentrações, dos gestos teatrais, mas que, pelo que é percetível, não vai muito além disso.
A religião muito preocupada com o secundário, com o quanto mais vistoso melhor, mas esquecida do essencial.
Não deixa de ser significativo que um considerável número de pessoas que, em 3 de junho, peregrinaram ao Sameiro não tenha participado na celebração eucarística com que a caminhada terminou.
 
3. Há figueiras sem figos em muito da atividade política. Muita conversa, grandes discursos, mas a verdade é que, com tudo isso, o País chegou onde chegou e não se vê em muitos dos responsáveis um esforço no sentido de se darem as mãos e contribuírem, todos juntos, para sairmos do pântano a que irresponsavelmente nos conduziram.
Bem espremidos, o que resulta de muitos discursos parlamentares? Qual a matéria de fundo de tais discursos? O que se grita em muitas manifestações?
 
Fala-se, fala-se, fala-se, mas atua-se pouco, muito pouco. Todavia, o que faz falta são obras e não palavras. Levantam-se problemas, mas não se apresentam soluções. Criticam-se caminhos, mas não se apontam alternativas.
Existe o flagelo do desemprego. Tem dado origem a muito inflamados discursos e a muitas acusações. No meio de tanto palavreado, onde estão as sugestões viáveis para resolver ou atenuar o problema?
Vive-se a ideia de que as pessoas valem pelo que dizem, quando o importante é o que realmente fazem em benefício do bem comum. Muitos dos ramalhosos discursos apenas servem para ludibriar os cidadãos menos prevenidos. E há, de facto, quem vá no paleio de quantos falam mas não agem.

Há cidadãos pagos pela comunidade para agirem em benefício do bem comum. Na prática, o que se vê? Uma vaga de críticas destrutivas, uma avalanche de discursos de bota-abaixo, o apelo insistente a
teatrais manifestações, quando o que importa é a análise serena, desapaixonada e apartidária, da situação e a busca concertada de soluções.
Pessoas muito palavrosas relativamente ao bem comum, na prática o que buscam é a defesa dos próprios interesses e dos interesses dos seus. Servem-se, mas não servem. Arranjam-se, em vez de colaborarem na solução dos problemas.
 
4. Todos beneficiamos se se pensar e agir mais e se falar menos. Se se buscarem consensos em vez de se lançarem diatribes. Se, em vez de se gastar tempo e dinheiro com questões de somenos, as pes-
soas se debruçarem sobre a realidade do que nos aflige. Se, em vez de inflamados discursos para iludirem as pessoas e arrancarem impensados aplausos, se colaborar de verdade na saída da difícil situação para onde, irresponsavelmente, insisto, nos atiraram.
Temos figueiras muito vistosas e muito ramalhudas, mas sem figos, e não é com folhas que se mata a fome às pessoas.




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