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Da demagogia e da pedagogia

Continua a ser caraterística nossa valorizar excessivamente o que diz este ou aquele ex-ministro, este ou aquele ex-dirigente, este ou aquele comentador de bancada. É quase como se o simples facto de “se ter passado por lá” imbua o “ex” de uma sabedoria e autoridade moral superiores. Não raras vezes, no entanto, um olhar mais atento ao que foi o consulado do douto comentador ou respeitável “ex” facilmente revela que o balanço da atividade do agora especialista foi tudo menos positivo em termos de resultados.

Nuno Reis
18 Out 2012

Mas pouco importa. A memória não é algo em que sejamos dos melhores. E, afinal, para quem vê no presente o seu trabalho ser escrutinado por quem, num passado até recente, não solucionou ou, pior, até ajudou a criar problemas cuja resolução agora cabe ao “titular”, resta sempre um bálsamo: a contagem final para esse estado “supra” acima de qualquer crítica e para o estatuto especial de infalibilidade de “ex” começou logo no dia da tomada de posse!
Descontada a ironia do parágrafo anterior, seria sempre positivo que quem tem, de facto, autoridade moral para criticar o fizesse. Mas frequentemente não é isso que acontece. É habitual ver um conhecido “ex” secretário de Estado, cujo mandato não se caraterizou por grandes feitos ao nível do controlo da despesa nem pelo lançamento de políticas de saúde pública que fiquem na memória, debitar permanentemente nos media a sua sabedoria.
O que é certo é que os cortes que hoje são incontornáveis, nessa como noutras áreas, não seriam seguramente da mesma magnitude ou da mesma urgência se tivessem sido feitos quando era suposto. Isso deveria levar os mais «atrevidos» a pôr a mão na consciência do que realmente fizeram quando tiveram o poder, por contraposição às soluções miraculosas que só agora parecem ter descoberto!
Há também exemplos semelhantes com valências invertidas: temos, igualmente, ex-lideranças de partidos políticos, cuja trajetória pública sempre se caraterizou por um grande sentido de responsabilidade e pela ponderação do que era, a cada momento, o superior interesse nacional, fosse ele ou não coincidente com o dos organismos por si liderados, transformarem-se em difusores de opiniões contrárias àquelas que, enquanto atuais e não “ex”, precisamente combateram. Prova de que esse síndroma das soluções iluminadas que parece tocar como Midas os “ex-qualquer coisa”, tem igualmente variantes de regressão, mas sob o traço comum do “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu fiz”.
Temos, depois, a aplicação do princípio de que os “ex” detêm, por inspiração divina, a chave do “cofre”, aos casos em que a vida pública sempre se orientou pelo lema “primeiro eu, depois eu… depois a República, não querendo eu”.
Falamos da mesma pessoa que, há pouco mais de um ano, dizia ter sido ela própria que teve uma discussão com quem de direito sobre a necessidade de se fazer um pedido de ajuda internacional. A mesma que se desfazia em elogios ao atual chefe de Governo, a mesma que governou em regime de tutela partilhada com credores externos e que, portanto, sabe o que é gerir sem autonomia, é aquela que hoje, confrontada com as medidas difíceis que nos impõem, alinha no coro de irresponsáveis que, há pouco menos de 40 anos, quiseram transformar o país numa espécie de datcha soviética no sudoes-
te da Europa.
Esta ideia de que os “ex” é que sabem e que, independentemente dos disparates que profiram, devem ver as suas palavras amplificadas sem contraditório ou comparativo com aquilo que foi a sua ação enquanto operadores das “alavancas” efetivas do poder, levaria a exemplos infindáveis. Mas uma boa regra tem sempre, no entanto, a exceção que a confirma.
Seria, de todas as formas, útil terminar com um outro exemplo. Por ser pela positiva permito-me no-
mear a pessoa: Ramalho Eanes. Nas mais recentes tomadas de posição públicas e, designadamente, na entrevista que concedeu à televisão estatal, por mais que a jornalista o brindasse com elogio atrás de elogio, entremeado com provocações fáceis, à procura de respostas bombásticas, o entrevistado não cedeu ao populismo básico ou à vã glória de se tentar mostrar como modelo de virtudes na gestão da coisa pública. Este “ex” teve todo o palco para se arrogar de uma ética superior aos demais ou dizer simplesmente “no meu tempo é que era”, “eu é que sei e tenho autoridade” mas, pasme-se, Eanes preferiu fazer pedagogia em vez de demagogia, preferiu responder não como alguém que do alto da confortável poltrona de quem está “fora” pode enunciar todas as soluções aparentemente miraculosas, mas como alguém que já «por lá» passou e tem consciência das dificuldades em que o país foi colocado.
Para alguns, os «tocados por Midas», ética republicana é tudo o que possa sair da sua boca. Para outros, infelizmente menos que os anteriores, ética republicana é aquilo que a sua ação credibiliza ou credibilizou e que a noção da responsabilidade e sentido de Estado consagra ou consagrou.




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