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Por que lhes dais tanta dor?

Baltazar Areias jaz, há alguns dias, nos cuidados intensivos do hospital. Foi largado na urgência pela família (um filho de quarenta e oito anos, uma nora um ano mais nova e dois netos às voltas com as voltas da vida, em busca de emprego ou meras ocupações precárias). Chegou ali de ambulância, a meio da noite, com sintomas fortes de acidente vascular cerebral: confusão mental, violentas dores de cabeça, prostração geral, desfalecimento. Por isso, difícil não foi à equipa de emergência médica diagnosticar a situação e tomar as primeiras medidas de socorro.

Dinis Salgado
17 Out 2012

Com oitenta e dois anos, Baltazar tem levado uma vida de cão. Viúvo desde os sessenta, só encontrou nesta situação atribulações e ausências. E da perda da mulher sempre costumava desabafar aos amigos que lhe fez imensa falta: Sempre era a minha bengala.
A família nunca teve (ou não quis ter) tempo para o aturar. E dele dizia ser um chato, um resmungão, um empecilho, um coisinho. Os maus tratos de ordem psicológica que lhe infligiam seguramente mais dolorosos e devastadores eram que qualquer mau trato físico. E, daí, que ainda ao hospital não tenha voltado, desde essa noite fatídica em que o derrame cerebral o vitimou. Nem sequer uma simples informação, mesmo que fosse através de um telefonema rápido, se dispôs a colher junto da unidade hospitalar.
Baltazar Areias é mais um caso de abandono hospitalar. Certas famílias, porque não têm vontade, condições ou conhecimentos para tratar deles, entregam os seus idosos (os estorvos), nestas e noutras instituições, com moradas e números de telefones inexistentes ou falsos. E, assim, a estes idosos só lhes resta a solidão, o abandono, a angústia da ausência dos seus entes mais próximos e queridos.
Vítimas fáceis de uma sociedade hedonista, relativista, desumanizada e egoísta, cada vez mais idosos vão para debaixo da ponte ou permanecem sozinhos em casa, à espera do fim, quantas vezes, trágico. Os casos de idosos encontrados mortos, já há meses ou, até, anos nas suas residências, são notícia frequente na comunicação social
Todavia, esta é uma situação de gritante injustiça e crueldade humana. A legislação que protege a velhice, neste nosso país, não está completa. Enquanto a proteção à infância dá algum apoio oficial aos pais, por exemplo, para que possam faltar ao trabalho e manter os seus vencimentos e demais regalias para assistir a um filho doente ou deficiente, na terceira idade tal não acontece. E muitas famílias, quantas vezes desestruturadas ou sem meios materiais e humanos para largarem o trabalho e apoiar os seus idosos, obrigadas são a estas macabras soluções de abandono e crueldade.
É urgente, pois, uma ação legislativa, eticamente solidária e humanista, que proteja a terceira idade e, ainda mais, as nossas crianças. Até, para que cumpridos estritamente sejam os artigos 69.°e 71.° da Constituição da República.
Então, até de hoje a oito.




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