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Hipocrisia bacoca

O tema da última Assembleia Municipal de Braga foi a tão discutida e polémica reorganização administrativa, ou seja, a redução do número de freguesias que compõem o Concelho. A ideia seria a Câmara e a Assembleia apresentarem e aprovarem uma proposta deste conteúdo para que, depois, ao nível do poder central, fosse tomada a decisão final sobre o assunto, sendo certo que essa mesma redução do número de freguesias vai ocorrer.

Ramiro Brito
17 Out 2012

Seria hipocrisia da minha parte dizer que do poder instalado na Câmara de Braga e dessa esquerda fundamentalista e bacoca que completa essa ala da reunião magna municipal, eu esperava mais do que…hipocrisia. Não esperava, de facto, mas, como diz o ditado, “a esperança é sempre a última a morrer”.
A reorganização administrativa e política do país é um imperativo incontornável, uma necessidade prioritária. Muito me espanta que aqueles, lá está, com hipocrisia pois claro, que andam nas ruas de bandeiras em punho e voz de comando, quais timoneiros de manifestações, a reclamar e exigir a redução da despesa pública como medida essencial de combate à crise e ao défice, quando uma medida é tomada nesse mesmo sentido não só se manifestam contra, como criam entraves à sua concretização e, pasme-se, ainda defendem a sua posição com a maior cara de pau.
De facto, os deuses devem estar loucos. Eu percebo as suas verdadeiras razões ou, por outra, não percebo, apenas conheço. A verdade é que foram “mexer nos seus quintais”. A verdade é que o poder político, em Braga, sempre se manteve à custa de uma estupidez de sintéticos, de piscinas e de outros arrufos de grandeza também ela bacoca que, apesar de nada contribuírem para a real melhoria da qualidade de vida das populações residentes nessas mesmas freguesias, são o fogo de vista que o povo gosta, que elege presidentes de junta e que permite ao poder instalado manter uma superioridade eleitoral bastante difícil de escamotear. Se a oposição joga com as suas armas, ideias, programas, projetos e políticas de mudança, o poder responde com sintéticos, piscinas e largos empedrados. É a tal obra que Mesquita tanto apregoa e que, na realidade, tem vencido as ideias.
Braga não precisa de 62 freguesias. Quanto a mim, nem de trinta, tal como a totalidade dos concelhos do país, que estão sobrelotados por uma divisão administrativa provinciana, atrasada, politicamente complexa e, acima de tudo, caríssima. Pois é, não basta ir para as manifestações só porque é giro gritar palavras de ordem. É preciso ter consciência do que se exige e do que se diz. Não é porque um tal secretário-geral da CGTP, completamente irresponsável e tresloucado pela obsessão de tentar justificar um emprego como sindicalista, quem sabe, para os próximos 10 ou 15 anos, anda pelo país a comportar-se como um acéfalo que por cada reivindicação lógica, racional e coerente que faz, completa com trinta completamente despropositadas, que vamos todos embarcar nesse barco da “acefalite” aguda.
Reorganizar o mapa político e administrativo do país é essencial. Desde logo, porque estamos mal organizados, porque não faz sentido Barcelona ter 10 áreas equivalentes a freguesias, e Braga, infinitamente mais pequena, ter 62, à semelhança do que acontece em todo o país. Tal como o excesso de concelhos que fomos criando porque meia dúzia de pessoas se juntava à porta da Assembleia da República e os políticos achavam piada a este movimento popular, como Vizela. Sinceramente, entendo que a encetar esta reforma administrativa, deveríamos ser ainda mais ambiciosos e aproveitar para fazer uma reestruturação mais profunda. Ficaria o problema solucionado de uma só vez.
No que se refere à esquerda bracarense, entendo que, por uma vez que fosse, apenas uma, deixasse o fundamentalismo e o eleitoralismo de lado e fosse responsável, pensasse primeiro no interesse do país e do concelho e depois na aritmética dos votos nas autárquicas de 2013. Foi este comportamento irresponsável que fez com que chegássemos aqui. Acho incrível que esses mesmos irresponsáveis e eleitoralistas, por um lado, se oponham a medidas estruturantes e fundamentais como esta e, passados dois dias, andem nas ruas a reclamar cortes mais profundos na despesa pública. É hipócrita, bacoco e nada digno. Os americanos diriam “shame on you”, esquerda bracarense.




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