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Corrigir não desacredita

Os dias soalheiros com que o tempo nos tem mimado neste outono não bastam para amenizar o estado de alma da generalidade das pessoas com quem me cruzo nos encontros habituais do quotidiano e nas conversas fortuitas que sempre têm lugar. Quase todas deixam transparecer medo, inquietação, insegurança e falta de confiança no futuro e fazem-no, muitas vezes, com agressividade e azedume.

J. M. Gonçalves de Oliveira
16 Out 2012

Portugal vive uma situação de crise profunda onde cada nova notícia faz crescer a angústia e o desalento. A condição económica retratada na taxa de desemprego, nos índices de imigração, no número de insolvências e em muitos outros parâmetros não deve deixar ninguém indiferente.
Neste panorama, onde todos os dias surgem teorias e se apontam caminhos contraditórios, para corrigir a austeridade sufocante que nos assola, impõe-se ouvir aos mais responsáveis palavras contidas que espelhem serenidade. Infelizmente, não é isso que temos testemunhado. Basta atender às dúvidas manifestadas pelo Fundo Monetário Internacional quanto às suas próprias receitas e às hesitações que o nosso ministro das finanças tem deixado cair na praça pública, para concluir que os ventos desta já longa tempestade não querem amainar.
Na encruzilhada em que nos encontramos, onde as dependências externas nos limitam as opções, e a exacerbada avidez de notícias nos pode atirar para um precipício ainda mais fundo, impõe-se que a comunicação do Governo seja bem preparada, objetiva e não fique à mercê de recuos imprevistos. Só deste modo será possível fortalecer a afoiteza do povo e avivar-lhe a mortiça chama da esperança.
Ter a humildade de corrigir os erros é uma apregoada virtude e uma prova de sensata sabedoria. Mostrar incapacidade de refazer o rumo traçado será o modo mais fácil de pôr em risco os objetivos que não se devem falhar. O Governo tem a missão de nos restituir a soberania perdida e de colocar o país nos trilhos de um desenvolvimento realista. É uma tarefa patriótica que tem de estar imune a quaisquer interesses ou arrufos. Com um mandato claro para cumprir, deve reforçar a sua imagem de coesão e dar os passos necessários para minorar o sofrimento do povo que, em última instância, é o menos culpado de tantos desvarios do passado.
Em diferente plano, mas podendo contribuir significativamente para a correção do rumo que, como nós, outros países europeus estão seguindo, evidencia-se a necessidade premente de os seus líderes serem capazes de encontrar as soluções que possam salvar o Velho Continente de novas tormentas.
Em Portugal, na Grécia, em Espanha e noutros países europeus, as manifestações de rua vêm assumindo proporções inquietantes. Até agora, as respetivas autoridades nacionais têm conseguido o seu controlo. Porém, a manter-se este cenário, poderá chegar o momento da impossibilidade de suster tanta revolta. Nessa altura, será a própria democracia a estar ameaçada e as consequências imprevisíveis.
Se tal calamidade vier a acontecer em qualquer destes países, o caos estará instalado, o regresso a qualquer tipo de ditadura terá caminho aberto e o populismo e a demagogia encontrarão terreno fértil para se alcandorarem. Nessa altura tudo estará em perigo. A liberdade será amordaçada, a justiça passará a ser uma miragem e a paz poderá estar em risco. E, certamente, será tarde demais.
Nos tempos conturbados que vivemos, é de primordial importância relembrar a História e poder recordar factos e acontecimentos que, embora com diferente enquadramento, não deixam de ter alguma semelhança com algumas das situações do presente. Na Europa e em Portugal do século passado, encontramos algumas conjunturas parecidas com as que hoje nos flagelam. Por isso, saber corrigir não desacredita ninguém.




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