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As novas unidades de medida

Os tempos mudaram e a nomenclatura também. As bestialidades dos governantes contribuíram, e muito, para isso. A crise também está associada aos novos termos que surgiram. Existe, hoje, uma panóplia de unidades de medidas que nos ajudam a perceber não apenas a dimensão das coisas – como o défice e a dívida pública, o PIB, o Orçamento de Estado de um determinado ano, etc -, como o rombo que nos é feito nas carteiras, via saque fiscal (em tempos idos, ao contrário dos de agora, o substantivo era utilizado sobretudo quando nos referíamos a letras comerciais e a cheques bancários) ou corte nos salários.

Luís Martins
16 Out 2012

Exceptuando o caso dos multimilionários, tais medidas aplicam-se sempre a uma comunidade ou a um povo. Nas demais situações, continuam a usar-se as medidas tradicionais.

Não tenho dúvidas de que sabem quanto vale um submarino. Sabem, claro que sabem. Foi Paulo Portas o protagonista. Fez a compra e depois gozou com o termo. Ficará na história e para a história das nossas desgraças. É isso mesmo: um submarino vale 500 milhões de euros. Na altura, o Ministro da Defesa não se conteve com um e comprou dois. Uma pequena frota, em número par. Uma quadrilha, diz-se hoje, tal qual ficou conhecida a dança que, no século XVIII, era executada por um número par de casais. Ao todo, foram 1.000 milhões a nadar. Como não havia dinheiro (que importa isso para o caso?), pediu emprestado. Foi para o livro de créditos. Já lá havia muitos outros registos e inscreveram-se entretanto outros, da responsabilidade dos Governos seguintes. O stock da dívida pública ascende hoje a cerca de 200.000 milhões de euros, ou seja, a 200 quadrilhas.
Um PIB são cerca de 170.000 milhões. O número não é exato, está arredondado e vai variando ao longo dos anos, mas é seguramente uma referência para nos situarmos nos próximos anos, talvez na próxima década. Serão talvez mais mil ou menos mil, não é plausível que o número se afaste muito disso. A não ser nos próximos dois, três anos em que poderá perder valor.

Há medidas regionais. Por exemplo, em Braga, 100 milhões é um estádio, um axa. A nível nacional, um eurofut (não acrescento nem sequer um “e” para parecer um termo estrangeiro, embora pareça singular na Europa e no Mundo) equivale a 500 milhões. Um eurofut corresponde então a 5 estádios ou a um submarino.

Há dias, ficámos a saber que a democracia se faz com carros de luxo e alta cilindrada. Um líder parlamentar fundamentava assim a compra de quatro dessas viaturas: compramos da marca X (a dignidade do carro deve estar de acordo com a dignidade do cargo) e ainda poupamos 100 mil euros. Muito menos que uma bagatela! O valor não é mais do que um zorrinho. Pena que não consigamos o mesmo resultado quando nos associamos a 3 amigos!

A unidade fundamental nesta questão dos grandes números é a bagatela. Nunca é nada demais, sobretudo quando se quer iludir o eleitorado. O que é, para as contas de um país, 1 milhão? Quase nada! Por exemplo, a Câmara Municipal de Braga comprometeu-se a transferir para o clube de futebol local tanto como 12 bagatelas para comparticipar atividades de funcionamento diversas. Durante 30 anos, serão 4 zorrinhos por cada época!

Este deveria ser o início desta crónica, mas já que não deu jeito, importa dizer que, tal qual os sistemas métricos tradicionais, neste dos grandes números, quase sempre a ser pagos pelo parolo, existem múltiplos e submúltiplos da bagatela, para designar os maiores valores e os que não chegam a tanto. Um zorrinho, que equivale a um décimo da bagatela, é um submúltiplo. Já a quadrilha, por ser equivalente a 1.000 bagatelas, é um múltiplo. Coisa simples, para quem se lembrar ainda da matemática da instrução primária.

Talvez um dia se encontrem termos mais adequados. Por ora, os que existem são elucidativos e dão para se ter uma noção da grandeza das verbas de que se tem falado. O Orçamento de Estado para 2013, por exemplo, prevê retirar aos rendimentos dos que trabalham no país, seja na qualidade de empresários, seja na de trabalhadores por conta de outrem, cerca de 5.000 milhões de euros. Uma marretada, de acordo com a denominação utilizada pelo jornal “i” na capa da última sexta feira. Uma marretada equivale então a 5 quadrilhas. Um assalto de 10 submarinos, à razão de um por cada bagatela de portugueses! Tudo porque uma jolda de políticos, atropelando regras básicas da boa gestão do património comum, nos deixou uma enorme relação de zorrinhos, axas, eurofuts, quadrilhas, bagatelas, marretadas e outros calotes por pagar.




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