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Uma notícia sobre os rankings

Os rankings dos estabelecimentos de ensino estiveram ontem em destaque em inúmeros jornais, como anualmente tem acontecido. “Privados continuam a dominar primeiros lugares”, dizia um. “Top 20 é novamente dominado integralmente por estabelecimentos do ensino privado”, referia outro. Para mais um, “as escolas públicas voltaram a ficar afastadas dos 20 primeiros lugares das tabelas ordenadas com base nas médias dos exames nacionais e caíram até mais do que em 2011”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
14 Out 2012

Sobre os efeitos perniciosos causados em inúmeros países e em Portugal também pela febre dos rankings, há, hoje, abundante bibliografia. Uma iniciativa que os defensores apresentavam como bondosa revelou, rapidamente, inúmeros efeitos perversos. O facto de muitos rankings esconderem mais do que o que mostram é, aliás, o motivo por que lhes estão, constantemente, a acrescentar novos elementos de ponderação. Assim se tenta que as listas se revistam de maior fiabilidade.

Mas em vez de mais uma opinião sobre o tema, vale a pena acrescentar aqui apenas um facto noticiado na terça-feira da semana que finda pelo diário francês Le Figaro: um liceu francês forçou os seus maus alunos ­­– maus pelas dificuldades de aprendizagem, não pelo comportamento – a irem embora para melhorar os resultados estatísticos.

Contava o jornal que uma carta anónima, enviada em data não especificada, à Federação das Associações de Pais de Alunos denunciou que o Liceu Edmond-Rostand, no Val-d’Oise, obrigou os alunos que revelavam mais dificuldades de aprendizagem a irem embora. O objectivo era simples: melhorar os resultados nos rankings. A seguir, como seria previsível, surgiu uma polémica.

A carta anónima referia a existência de mais de cinquenta pedidos de saída do liceu assinados por alunos ou pelos seus pais. Entre o lote de pedidos, uma dezena fazia-se acompanhar de uma justificação, disse Bruno Brisebarre, presidente da Federação das Associações de Pais de Alunos de Val-d’Oise. Quanto aos restantes alunos, nenhum motivo era invocado. Foram, pura e simplesmente, incitados a ir embora. O representante dos pais sustenta que “estes alunos não tiveram qualquer problema disciplinar que pudesse justificar que, como sanção, os colocassem à porta”.

Uma estação de rádio, France Bleu, ouviu uma antiga aluna que afirmou que tinha sido pressionada a abandonar o seu liceu. “Diziam que eu não tinha qualquer futuro, que era melhor ir embora, que estava a perder o meu tempo e que, de qualquer modo, sucedesse o que sucedesse, no ano seguinte, eu nunca iria poder prosseguir”, contou.

A inspeção de ensino do Val-d’Oise nega as acusações, dizendo que os alunos partiram por vontade própria, mas a Federação das Associações de Pais de Alunos mantém-se em “pé de guerra”. De resto, garante, se a situação não mudar, haverá, como último recurso, a apresentação de uma queixa no Tribunal Administrativo.

“Esta prática escandalosa e ilegal existe em inúmeros estabelecimentos de ensino”, garantiu Bruno Brisebarre na revista L’Express. Os estabelecimentos não pedem claramente aos alunos mais fracos para se irem embora, mas admitem a possibilidade de não os readmitirem no ano seguinte. Deixam então subentendido que será mais difícil encontrar um outro estabelecimento de ensino, designadamente privado, se eles esperarem muito para partir.

Quem julgar que esta prática, não generalizada, evidentemente, de mandar embora os alunos que poderão estragar a possibilidade de o estabelecimento de ensino obter uma boa classificação no ranking apenas existe em França, anda longe da verdade.




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