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No começo do Ano da Fé

1. À míngua das coisas que nos vão escapando, vamo-nos agarrando, cada vez mais, às coisas que ainda persistem. Na hora que passa, sentimo-nos esvaziados por fora e vazios por dentro. Aquilo que nos vai faltando leva a que demos uma maior atenção àquilo que ainda nos vai acompanhando.

João António Pinheiro Teixeira
14 Out 2012

2. Acreditar é para todas as horas. Mas diria que é, ainda mais, para as horas difíceis. «É preciso acreditar» – cantava Luiz Goes há décadas. «É preciso acreditar» – apetece-nos gritar hoje.
É por isso que, quando a economia está em baixa, a fé costuma ficar em alta. Não devíamos olhar para a fé apenas como um expediente. Mas é interessante notar que ela é acolhida como uma espécie de último refúgio.

3. Daí que a fé continue a ser uma palavra carregada no conteúdo e sobrecarregada de sentido.
Ela remete para Deus, mas também não deixa de fora o homem. Confiamos em Deus não porque não confiemos nos homens. Confiamos em Deus até para podermos confiar mais nos homens.

4. Começou, no dia 11, o Ano da Fé em toda a Igreja. Coincide esta data com a celebração dos 50 anos do início do Concílio Vaticano II.
Deste modo, sobressai a possibilidade de fortalecer a fé à luz do grande acontecimento que foi o Concílio e do permanente itinerário que continua a ser o Concílio.

5. O Concílio decorreu em Roma (entre 1962 e 1965), mas parece que nunca terá chegado verdadeiramente até nós. Apercebemo-nos de alguns dos seus sinais (nomeadamente a Missa em português), mas creio que ainda não chegámos a penetrar no coração das suas propostas.
Sucede que o principal contributo do Vaticano II foi redespertar a nossa atenção para a centralidade de Deus e de Jesus Cristo. Reconduziu-nos, portanto, para as fontes da fé.
6. A fé é muito mais do que um palpite, do que uma esperança vaga na realização dos nossos desejos. O Concílio Vaticano II descreve-nos a fé como uma resposta à proposta de Deus.
A Igreja, em primeira instância, não é uma organização dirigida por uma estrutura. Antes de mais e acima de tudo, a Igreja é a presença no tempo do mistério eterno de Deus, desvelado em Jesus Cristo.

7. É assim que a Igreja, na diversidade de tarefas realizadas pelos seus membros, é uma fraternidade de crentes e de discípulos. Não são um mundo à parte, mas uma parte do mundo. Partilham as suas tristezas e comungam das suas esperanças.
É a linguagem do mundo que a Igreja deve falar até porque é ao mundo que ela é chamada a dirigir-se.

8. Por conseguinte, a Igreja não está numa batalha contra o mundo. Ela tem de constituir uma presença solidária no mundo, alertando para as suas injustiças e não desistindo de o apoiar nos seus sonhos.
Daí que Karl Rahner tenha apontado o Concílio como um «novo começo». Precisamente porque ele procurou extrair toda a força que nos vem dos começos, dos tempos de Jesus e dos Apóstolos.

9. Sobre o Concílio Vaticano II, são muitos os comentários, o que é bom, mas são poucos os estudos, o que é pena. Ambos são necessários, até porque se enriquecem mutuamente.
Para haver comentários, é mister haver estudos. Caso contrário, tudo arrisca a pairar sobre a espuma de umas aproximações fugidias, pouco consistentes.

10. O Concílio não entrou em choque com o passado. Não eliminou as heranças do passado (nem sequer a Missa em Latim, que pôde e pode continuar a ser celebrada). Ao mesmo tempo, franqueou as portas ao presente e abriu as janelas ao futuro.
Já não é pouco. É bastante. É o bastante!




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