Fotografia:
Boa notícia

Há dois registos recentes no Diário do Minho que merecem ser destacados como “boa notícia”, neste momento histórico em que se recorda o Vaticano II, e a Igreja tanto precisa de perspetivas de renovação básica: um deles vem na página 13, do jornal do dia 3 de outubro, citando o bispo D. António Couto, que foi Auxiliar de Braga: “o problema da transmissão da fé não estará tanto do lado das pessoas que não querem ouvir”, mas principalmente do lado de quem anuncia; o outro refere-se a uma entrevista ao novo bispo Auxiliar, D. António Moiteiro, em que afirma que a “a primeira missão da Igreja é fazer discípulos e só depois baptizar e ensinar”. Ambos os registos se referem ao processo de evangelização e à abordagem prioritária do processo de ação da Igreja.

M. Ribeiro Fernandes
14 Out 2012

1. Comecemos pelas palavras de D. António Couto, que se situam também na perspetiva do próximo Sínodo dos Bispos, no Vaticano. É muito raro encontrar-se alguém que assuma que determinado projeto de ação pastoral pode ter falhado por erro ou culpa sua. É sempre mais fácil remeter para os outros a responsabilidade do insucesso, acusar o povo de insensibilidade, de se afastar de Deus, de não prestar atenção ao que a Igreja diz. Os outros é que são os inimigos. Sempre assim foi. A humildade é difícil. A própria linguagem do documento preparatório deste Sínodo está marcada por esse defeito de mecanismo de defesa.

1.2. Quando li essa observação do D. António Couto, fui rever o que tinha escrito sobre essa matéria há já bastante tempo e que, depois, condensei em livro, que o Diário do Minho editou, em 2009, com o título “À PROCURA DO SENTIDO DAS REALIDADES”. Sobretudo no capítulo IX, O SÉCULO DA RELIGIOSIDADE, da página 225 a 275. E, desse capítulo IX, as “Cartas a um Pregador”. Passados mais de três anos, verifico que a realidade tem piorado, mas a análise mantém-se atual. Remeto, por isso, o leitor para esse livro. São reflexões que vale a pena reler neste momento. Talvez, há três anos, não tivessem recolhido a atenção necessária, quando foram divulgadas. É o risco de falar antes de tempo.

1.3. A análise do processo de transmissão da fé é crucial e básica para a ação da Igreja. Há rotinas religiosas que estão esgotadas e há formas institucionais que até já funcionam como sinal negativo. Um exemplo: um amigo contou-me, há dias, um facto que o demonstra. O caso passou-se numa aldeia bastante desenvolvida, no Alto Minho. Uma pessoa, que ele conhecera, faleceu. E o padre recusou-se a fazer o funeral religioso dela se a família não lhe pagasse os impostos que lhe devia de alguns anos, em atraso. E eles lá tiveram que lhe pagar tudo, com juros e capital, para que o pároco fizesse o funeral religioso. Quer dizer, continua a haver párocos que agem como se fossem suseranos do povo, a quem podem cobrar impostos em nome da religião e vender rituais religiosos. Pensei que já não houvesse disso; mas, há. Agora, as pessoas perguntam-se: que capacidade de anúncio de fé pode ter uma pessoa destas? Quem vai acreditar nele? Que está ele a fazer nessa função?
Anunciar a mensagem cristã é exigente como o amor. E o amor conquista-se amando, não impondo nem exigindo. Se a intimidade do pregador não tocou a intimidade de Cristo na sua experiência de vida e não se deixou transformar por ela, não tem condições para fazer o anúncio da mensagem cristã.
2. O outro registo vem no Diário do Minho de 27 de setembro, no caderno interior designado “Igreja Viva” e refere-se a uma entrevista ao novo bispo-auxiliar de Braga, D. António Moiteiro, sobre a necessidade de uma nova evangelização e as suas prioridades, na qual ele diz que “Os últimos versículos do evangelho de S. Mateus dizem-nos, por esta ordem, para os apóstolos irem e fazerem discípulos, irem e baptizar, irem e explicar a conduta a adoptar. A primeira tarefa do apóstolo é fazer discípulos. Hoje, em dia, a Igreja utiliza a ordem inversa: primeiro, baptiza e depois é que ensina e explica os conteúdos, na convicção de que se tornarão discípulos. O que se observa é que, muitas vezes, são cristãos que, após os sacramentos da iniciação, deixam de praticar a sua fé e abandonam a Igreja”. E, mais adiante, diz: “Falta uma organização sistemática da catequese de adultos por um período de dois ou três anos”.

2.1. No estado actual das coisas, é decisivo este enfoque da ação pastoral. Não quer dizer que devam largar mão de tudo o que estão a fazer de pastoral sacramentalista, mas que se definam prioridades e se reorientem perspetivas. É o próprio texto de instrumento de trabalho para o referido sínodo que exige que se revejam perspetivas e redefinam prioridades ao assumir que “várias igrejas particulares conhecem o afastamento dos fiéis por causa da pouca fé, da vida sacramental e da prática cristã e algumas até poderiam ser inseridas na categoria de não-crentes”. É preciso uma nova abordagem e uma nova linguagem na acção da Igreja. Mais carismática e querigmática e menos funcionalizada e sacramentalista.
(continua na próxima semana)




Notícias relacionadas


Scroll Up