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Roma e Pavia…

Humildemente confesso que tenho muita dificuldade em perceber o que verdadeiramente se passa no Sporting Clube de Portugal. Aliás, quando há dias, em ligeira tertúlia de amigos (de natureza futebolística), nos perguntávamos se o Sporting era mais Sísifo ou mais Tântalo, ninguém foi capaz de responder perentoriamente a essa questão…

Carlos Manuel Ruela Santos
11 Out 2012

[Para o leitor menos familiarizado com a mitologia grega, recordo que Sísifo foi condenado por Zeus a transportar uma enorme pedra até ao cimo de uma montanha – pedra essa que rolava novamente até à base quando estava prestes a chegar ao cume, obrigando Sísifo a empurrar eternamente o pedregulho montanha acima, num esforço vão e inútil. Tântalo, por seu lado, teve como castigo divino ser lançado no Tártaro (inferno), onde, apesar de se tratar de um vale de abundante vegetação e cristalina água, não podia saciar a sua fome nem a sua sede: ao aproximar-se da água, esta escoava-se repentinamente, deixando-o sedento; e ao aproximar-se das árvores para lhes colher o fruto, os ramos moviam-se para longe do seu alcance sob a força do vento, deixando-o eternamente esfomeado.]
Em boa verdade, talvez o Sporting CP contenha na sua “personalidade” uma mistura de Sísifo e de Tântalo. De Sísifo porque está continuamente a renovar a sua equipa de futebolistas e de técnicos, e parece que tudo volta eternamente ao princípio, apesar do aparente esforço em fazer chegar o clube ao cimo da tabela classificativa, qual pedra rolando montanha abaixo quando parece estar perto do objetivo; e de Tântalo porque, apesar de possuir, em abundância, uma equipa de bons executantes e um rol de bons treinadores (Paulo Bento e Domingos Paciência são dois exemplos disso, pelas provas já dadas noutras andanças…), essa “água” e esse “alimento” lhe escapa da boca – como se tivesse tudo para lutar pela glória e, inexplicavelmente, a deixasse fugir por entre os dedos…
Vários comentadores desportivos têm afirmado que, no Sporting, há um “problema de liderança” – pois ali toda a gente dá palpites à comunicação social, toda a gente parece ser “treinador”, toda a gente parece ter mais “força” do que os treinadores e do que os próprios presidentes. É provável que se trate mesmo de um problema de liderança. Contudo, e sem pretender dar uma explicação cabal para o “problema” que grassa em Alvalade há anos a fio – tenho para mim que se trata, sobretudo, de uma questão de “expectativas”.
Ou seja: o Clube de Alvalade contrata a elevado preço futebolistas de grande valia e técnicos de sucesso confirmado – e os seus responsáveis logo prometem uma imediata luta pelo título, como se uma “equipa” de futebol e um bom “fio de jogo” se pudessem construir em meia dúzia de meses…
Ora, o que o Sporting necessita, julgo eu, é de estabelecer objetivos a dois-três anos e definir uma estratégia (na aquisição de jogadores, na contratação de técnicos, etc.) que garanta que esses objetivos serão alcançados no final desse “razoável” período. Porque contratar bons futebolistas e conceituados técnicos e anunciar logo que haverá “êxitos imediatos” acaba por provocar enormes frustrações, quer nos adeptos quer nos próprios dirigentes, treinadores e jogadores – com as inevitáveis e nefastas consequências que se têm visto de há alguns anos a esta parte.
Neste aspeto – felizmente! – o Sp. Braga tem dado um bom “exemplo” (com o qual o Sporting deveria “aprender”…): a meta só se alcança com êxito ao fim de uma longa e persistente caminhada! É que Roma e Pavia não se fizeram num dia…




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