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Foi há 50 anos

Foi há 50 anos que teve início o Concílio Ecuménico do Vaticano II, anunciado por João XXIII em 25 de janeiro de 1959. Para o assinalar, assim como para recordar os 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, Bento XVI decidiu proclamar um Ano da Fé. Fé que há de manifestar-se no quotidiano de quantos a professam, não se reduzindo a um conjunto de questões em que dizemos acreditar, sempre que proclamamos o Credo.

Silva Araújo
11 Out 2012

É preciso – lê-se numa Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa datada de 19 de abril do ano em curso, que a nossa fé encarne num estilo de vida cristão na família e no trabalho, na vida social e política. Cristo exorta-nos à coerência entre fé e vida real: «Nem todo o que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21). E S. Tiago recorda-nos que «a fé sem obras está morta» (Tg 2, 26). É inexistente.
 
Na vida em coerência com a fé é que está a chave de muitos problemas. E aí é que residem o difícil e o importante do ser cristão.
Vida vivida em coerência com a fé a cada momento e em todas as circunstâncias e não apenas em atos pomposos para que se chama a Comunicação Social, como se o Senhor não tivesse recomendado que a esquerda não saiba o que faz a direita.
 
Causa-me apreensão a tendência crescente para a vivência religiosa feita espetáculo e folclore. Vive-se a fé – ou dá-se a impressão disso – em momentos particularmente selecionados. Vistosos. Depois, no dia a dia…
«Caule sem espiga não produz farinha» (Oseias 8, 7), mas às vezes pode ficar-se com a ideia de nos limitarmos a cuidar de vistosos caules, que não passam disso.
 
Celebrar o cinquentenário do Vaticano II não deve ser algo semelhante à comemoração da batalha de La Lys, por exemplo. O Concílio produziu importantes documentos que é preciso conhecer cada vez melhor e pôr em prática.
A referida Nota da Conferência Episcopal sugere se «promovam o estudo, a reflexão e a aplicação do Concílio Vaticano II, sobretudo dos documentos mais relevantes, as Constituições: Lumen Gentium, sobre a Santa Igreja; Sacrosanctum Concilium, sobre a sagrada Liturgia; Dei Verbum, sobre a Revelação divina; e Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo contemporâneo».
Tal celebração – diz a mesma Nota – «deve levar-nos a um exame de consciência, pessoal e comunitário, para vermos o que falta fazer para implementar o espírito e a letra do Concílio». Há que ter a coragem de nos perguntarmos se a Igreja de Cristo a que pertencemos é hoje a Igreja do Concílio do Vaticano II.

Ele, «ainda hoje, continua a ser (ou deve continuar a ser, se de facto já começou a sê-lo) a bússola segura que norteia a vida e a ação da Igreja de Cristo». E um modo muito recomendável de assimilar o espírito e a letra do Concílio do século XX, de tanta atualidade ainda nos primórdios do século XXI, consiste em «ler, estudar e dar a conhecer o Catecismo da Igreja Católica», de que existe também uma edição adaptada aos jovens, o Youcat.
Mas será que é lido por todos os cristãos? Existe em todas as famílias?
 
A Igreja tem uma belíssima doutrina. Simplesmente, nem todos a conhecem. E aqueles que a conhecemos e a pregamos nem sempre a praticamos. E aí é que está o problema. Falamos, mas nem sempre vivemos. Falta-nos, em muitos casos, a tal coerência entre a fé e a vida.
É muito fácil, por exemplo, falar em solidariedade, mas manifestar isso com gestos solidários… É muito fácil lamentar a chaga do desemprego, mas impedir a prática do pluriemprego ou dizer a aposentados com boas pensões de reforma que deixem o trabalho remunerado para quem dele precisa como de pão para a boca…




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