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Danças com aves

1 – Um editorial que falou do melro e da oriolaHá poucos meses atrás, o prof. Silva Pereira, atual diretor do DM, escreveu sobre a abundância dos melros e do quase desaparecimento dos papa-figos (ou oriolas), por contraste com o que constatara em fase mais recuada da sua vida. Como ornitólogo amador que sou desde os meus 18 anos, senti logo um impulso de, na próxima vez que tivesse oportunidade de lhe falar, confirmar a veracidade das suas observações e de o congratular por essa sua faceta de amante da Natureza.

Eduardo Tomás Alves
11 Out 2012

É que somos, infelizmente, tão poucos, aqueles que reservamos uma parte dos nossos breves tempos livres à observação da vida natural, que quando por acaso deparamos com uma “alma gémea” ficamos sempre deliciados. E aproveitamos para partilhar experiências. É o que farei neste pequeno artigo, alargando pois o relato a todo o leitor interessado.

2 – Incêndios, computadores, barragens, “parques” eólicos…
Os grandes inimigos da vida selvagem aqui na Europa são vários. Em 1.º lugar, a superproliferação de computadores, telemóveis e muitos outros equipamentos eletrónicos, os quais absorvem, quase em exclusivo, a atenção de jovens e de adultos, matando neles o normal interesse que todas as gerações anteriores tinham pelo mundo natural (com o qual só contactam através de “canais do cabo”). O aumento exponencial do consumo de eletricidade induz a que ela tenha agora de ser produzida em quantidades astronómicas e a que nem sequer se pense em poupar. E quando, por azar, passa um José Sócrates pelo governo durante 6 anos, o desastre vai ser total. Em vez de se apostar na energia solar, fotovoltaica ou das ondas do mar, ele (e agora também Passos Coelho) apostaram em semear os nossos melhores montes com 2.000 ventoinhas eólicas e em destruir os nossos mais belos rios (Sabor, Tua, Tâmega) com megabarragens que encherão os bolsos dos Motas, Espíritos Santos e dos grandes capitalistas chineses, quem diria… Se a tudo isto juntarmos uma rede de autoestradas caríssimas onde quase ninguém passa e a impunidade dos bandos organizados de incendiários que, todos os anos, queimam entre 100 e 350 mil hectares do território, estamos falados quanto à defesa da Natureza no pequeno Portugal.

3 – Um bom guia de aves e um binóculo de 8 ou 10 vezes
Observar aves no mato, no campo ou em meio aquático não sai caro. Basta ter um binóculo nítido que aumente 8, 10 ou 12 vezes e comprar um dos vários bons guias das mais de 500 aves da Europa e arredores. Estes guias são exaustivos quanto a todo o tipo de detalhes (mapas, canto, ninhos, habitats, migrações) de cada uma das aves e incluem várias pinturas de cada espécie. No 1.º que tive, os desenhos eram do americano Roger Peterson. No 2.º, eram de Arthur Singer. No 3.º, o melhor de todos, publicado pela Assírio e Alvim em 2003, eram de Mullarney e de Zetterstrom. A observação de aves é, garanto-vos, o melhor modo de aliviar o “stress” de quem more na cidade e tenha uma vida esgotante. Tem é de escolher locais que ainda não tenham sido destruídos por aquilo a que os parolos chamam “progresso”.

4 – Alguns dos meus melhores “encontros imediatos”
Tanto ou mais que uma igreja ou catedral, a Natureza é um verdadeiro templo da obra de Deus. E é um sacrilégio destruí-la sem necessidade, como fizeram Sócrates e Mexia. Entrar campo adentro, penetrar no mato é um ato religioso. Deixem-me contar o que Deus me deu em troca, algumas vezes. De início, eu ia muito ao norte da ria de Aveiro. E foi lá que vi o extraordinário voo nupcial dos abibes, que sobem aos ziguezagues e descem a pique. Lá, pela 1.ª vez, me maravilhei com o patrulhar dos caniços pelos casais de tartaranhões dos pauis (“circus aeriginosus”). Outras espécies de tartaranhões (que são como as águias, mas mais magrinhas), podem ainda ser vistas na primavera no Tua, entre Valpaços e Mirandela. No famoso “quadrassal” de Mirandela (Cedães) vi, uma vez, numa curva de estrada, uma gigantesca águia de Bonelli, pousada num sobreiro. Outra vez, em Dijon (Borgonha, França), deparei numa clareira com uma colónia de centenas dos mesmos abibes (ou aves frias). Na Causse de Grammat (a sul do rio Dordogue) parei, uma vez, num fim de tarde de primavera, e havia dezenas de cucos a cantar nas pedras e nos carvalhais. Um bando de abutres a pousar mesmo à beira do asfalto, já vi no Rosmaninhal (Tejo). A 1.ª vez que um leigo vê os coloridos abelharucos, papa-figos, guarda-
-rios ou pegas-azuis, nunca o irá esquecer. Em Zamora, já vi 4 ou 5 jovens peneireiros numa só árvore. No sul de Espanha, vi, entre os sobreiros, o meu 1.º pequeno picanço barreteiro (Monfrague). Na infância, vi os noitibós a levantar de surpresa do chão dos azinhais (Córdova). Nos postes de telefone, o mínimo mocho galego. E na Lousa (Douro), o maravilhoso e rápido gavião.
O planeta só será salvo quando Rodríguez de la Fuente e Carl Zeiss forem tão admirados quanto Bill Gates ou Steve Jobs, acreditem…




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