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A aritmética de Portas

É oficial. Portas está a ficar sem chão no que se refere à capacidade de lidar com a situação política dentro do Governo. Uma coligação é, por natureza, algo difícil de sustentar. A verdade é que para que a mesma se mantenha e perdure, é necessário que um dos partidos aceite a maior ascendência do outro e consiga conviver com a permanente anulação ou ofuscação do seu espaço político. Esta é a realidade, digo-o com o conhecimento de quem já esteve nos meandros de uma coligação, a nível local, é certo, mas não deixa de ser uma coligação.

Ramiro Brito
10 Out 2012

A tentação do partido maior em não ouvir o mais pequeno é permanente e quase impossível de controlar e, portanto, o partido mais pequeno está quase que em constante grito de sobrevivência. Há hábitos, aparelhos, interesses que se misturam e sobrepõem, obrigando a uma gestão quase cirúrgica de cada situação, de cada tomada de posição, enfim, há o risco permanente de o partido mais pequeno desaparecer ou mingar como consequência direta de disputar eleições ou exercer o poder em coligação.
É assim em Braga, é assim no país e deverá ser assim em todas as coligações de natureza político-partidária que envolvam partidos do mesmo espetro político.
A verdade é que a tarefa do CDS/
/PP nesta coligação que formou o Governo que acredito ser já de salvação nacional, não é fácil. Portas é mediático, é persuasivo, tem capital político próprio que se dissocia mas também confunde com o do partido. Desde 1999 que o CDS/
/PP não sabe quanto vale sem Portas, não faz ideia de quanto vale o líder e de quanto vale o partido sem o líder. Portas sobreviveu à queda do projeto de coligação com o agora confortável comentador Marcelo Rebelo de Sousa, debateu-se sempre sozinho em eleições desde então, conseguindo resultados genericamente bons para o partido e sobreviveu à queda da última coligação com Durão Barroso e depois Santana Lopes. É um sobrevivente da nossa classe política, mas engane-se quem lhe atribuir apenas este papel redutor pois é mais do que isso. É o político mais experiente e inteligente no que toca ao xadrez que conduz e gera poder. Tem o handicap de ser o líder de um partido pequeno. Julgo que nunca saberemos onde poderia ter chegado num PSD. Poderia ter sido mais um, ou poderia ter marcado a história do país de forma ainda mais acentuada.
Na sua estratégia de implantação social das ideias políticas associadas à área do CDS/PP, escolheu temas caros, mas sectaristas, como as questões sociais de pequenos grupos (reformados ou militares) e a agricultura. Foi tão genuíno como inteligente por ter percebido que aí estavam os votos que lhe poderiam fazer ter uma palavra a dizer num futuro governo de Portugal. Os 10% de Portas valeram–lhe duas presenças em governos de coligação e a gestão das pastas que tocam precisamente nos temas escolhidos, a saber, solidariedade social e agricultura. Nunca estas pastas são geridas pelo próprio que se resguarda em ministérios mais confortáveis e de maior significado político, como o Estado e Defesa, com Durão Barroso e Santana Lopes, e agora, quanto a mim, o jackpot dos ministérios que é o dos negócios estrangeiros.
Ora, importa aqui perceber e dissociar duas ideias. A primeira é que Portas sabia das medidas a aplicar decorrentes do acordo com a troika, ainda na vigência do governo de Sócrates, e sabia do impacto negativo que essas medidas teriam na sociedade portuguesa. A segunda é que estas medidas vieram a revelar-se mais drásticas e austeras do que inicialmente esperava, mexendo de forma bastante intensa nas suas áreas de intervenção, sobretudo no que se refere à segurança social. Este é um problema que parece ridículo levantar dada a conjuntura em que se encontra o país, mas a verdade é que haverá um cenário de pós-crise, Portas é um animal político à frente de uma manada bem mais pequena do que ele próprio e tem de pensar no que será do tal partido mais pequeno, constantemente afrontado pelo grande, e ter de manter a pose de responsabilidade de Estado, num cenário que não lhe é propriamente favorável.
Esta é a aritmética de Portas. Se, por um lado, não pode causar a queda deste Governo sob pena de ser o causador de uma crise política de proporções gravíssimas, por outro tem de lutar pela sobrevivência do seu partido e dos
ideais que tão ferozmente defendeu ao longo dos anos, nesta guerra multilateral que assola o país neste momento.




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