Fotografia:
Se é para quebrar, que seja agora

Não. Não vale a pena insistirem. Hoje não falarei das novas medidas de austeridade. Tenho outro propósito. Direi apenas que soltei um palavrão. Estava em família. O eco ficou restringido aos dezasseis metros quadrados da sala onde estávamos a acompanhar a conferência de imprensa. E mais não digo, por agora. Tinha decidido escrever sobre Portas e o CDS. E é o que vou fazer, se o teclado do portátil que estou a usar se portar bem.

Luís Martins
9 Out 2012

Começo pelo enquadramento. Por razões que se conhecem, o Governo tem estado sob fogo de todos, incluindo do seu parceiro de coligação. Diz-se até que o CDS está no Governo e na oposição. De facto, foram violentas as medidas. Primeiro, a alteração da TSU, que não foi avante, pelo menos para já. Depois, o bombardeamento fiscal. Não sei qual seja o pior. Talvez o último, por ser o que mais dor vai provocar. Tem acrescentos e vai deixar-nos prostrados. De rastos, ou quase. A esperança que nos animava em 2011 está a esvair-se. Lá estou eu a dizer o que não contava!
Agora a síntese. Nas próximas semanas, vai passar a falar-se mais do CDS. Não para o desculpar, por querer respeitar as promessas e o seu eleitorado. Pelo contrário. Será pela forma como este partido da coligação governativa se tem comportado perante o parceiro. Depois de um namoro faz de conta – sempre se percebeu que havia jogo de interesses e aproveitamento político – o verniz estalou à primeira contrariedade. É verdade que foi um susto para todos a alteração da TSU, mas o CDS estava avisado, desde logo, por estar no Governo.
O desenvolvimento inicia com uma pergunta: então Portas não sabia da situação do país, não tinha a noção de que a austeridade comprometeria o seu discurso de campanha eleitoral de aversão a mais impostos? Sabia, claro que sabia. Nunca esqueceu as palavras que proferira contra Sócrates e a sua austeridade. Lembram-se de ele ter denominado as medidas de austeridade de então de saque fiscal? Portas recorda-
-se bem desse tempo e está a ficar saturado por ouvir o discurso que antes era dele. Não suporta já ouvir falar nem de saque, nem de roubo, nem de bombardeamento, nem de outros nomes para chamar às medidas que, quer queira, quer não, são do Governo a que pertence e para as quais contribuiu. Infelizmente, para ele, mas também para nós, é tema que não deixará de ouvir, ainda mais depois dos últimos detalhes, até que o disco se desatualize por a maré ter mudado, o que se espera seja para melhor.
Vivemos um momento de emergência económica, financeira e social aguda e num quadro desta gravidade, o comportamento do partido minoritário do Governo deveria ser outro. A sua postura e a sua compostura deveriam ser condizentes com a responsabilidade que se impõe. Portas e o CDS têm todo o direito de discordar, mas deveriam fazê-lo no recato do Governo. Deveriam estar calados fora de portas. Há um lugar para dirimir as questões que eventualmente possam dividir os partidos que apoiam o Governo. É no seio do Governo e da coligação. Se aí isso não é possível, então o melhor é sair. Como está a ser feito é que não. Se estivessem com boas intenções, era assim que fariam. Não podem desafinar nos comentários às televisões e aos jornais. Uma orquestra pode desafinar no ensaio, não no concerto, que é público.
Infelizmente, a desafinação já vem de longe. Desde há quinze meses que Paulo Portas estica o pescoço quando a coisa lhe é favorável e se esconde quando a notícia é má e pode ficar mal na fotografia. Em todo o caso, importa dizer, ele faz parte de um Governo e como tal é corresponsável por todas as matérias, sejam elas boas ou más, esteja no país ou fora dele. Mas o CDS tem-se aproveitado da coligação. À boleia, procura sempre os dividendos, mesmo em ocasiões em que o negócio não é lucrativo. Pode não haver proveitos de exploração, mas o CDS não se importa de alterar as contas conquanto saque alguns dividendos.
Desde 7 de outubro que o Governo deixou de gozar de compreensão e o CDS, prisioneiro das suas promessas eleitorais e do seu discurso, mudou de comportamento: amuou, desconversou, começou a jogar ainda mais pelos seus interesses, mesmo que contrários aos do país. Uma preocupação constante na coligação. Os ratos também são assim. Sempre que podem, roem. Tomamos, por isso, cautelas. Portas e o CDS estão a roer a corda. O contrato que coligou PSD e CDS está quase a ser rasgado. Do lado deste último, pelo comportamento recente de várias figuras centristas, mas também do seu presidente, a vontade disso é mesmo muita. Portas pode acabar enroscado na armadilha em que se enfiou. Se isso acontecer, merece-o. E os seus sequazes também.




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