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O povo pede pão

Temos visto e ouvido nos meios de comunicação social (televisão e rádio) que os membros do Governo têm sido vaiados e insultados nos mais diversos locais onde vão. É verdade que temos assistido a tudo isto e, ainda, a manifestações com a dimensão e frequência nunca antes vistas desde o período do 25 de Abril de 1974 e dos tempos conturbados que seguiram.

Marcelino Abreu
9 Out 2012

Ninguém ficará, por certo, indiferente ao que se tem passado nos últimos tempos. O que aconteceu no passado dia 5 de outubro, no local onde decorria a cerimónia oficial da comemoração do feriado (uma mulher que entra aos gritos no local querendo, ao que parece, falar com o Presidente da República para lhe expor a sua situação de miséria em que vive) é um caso inédito numa cerimónia oficial e algo de que, apesar de inédito, confesso, já estava à espera que pudesse acontecer (não nos moldes ocorridos, mas, confesso, uma manifestação popular e até invasão ou tentativa de tomada do local por manifestantes).
O ambiente está, como se costuma dizer na gíria popular, “de cortar à faca”.
É verdade que não é agradável a ninguém ser insultado, muito menos em público e com a presença de meios de comunicação social por perto. E também não é menos verdade que este desconforto é tanto maior quanto, apesar de se estarem a tomar medidas impopulares, tais medidas têm por objetivo tentar debelar uma crise que não foram os visados pelos insultos (alguns deles pela primeira vez em lides governamentais) que a criaram, ao passo que àqueles que são responsáveis pelo estado em que nos encontramos nada acontece (nem um inquérito à sua atuação). Contudo, também não é menos verdade que o que se pede a este Governo (e o que, de resto, ele se propôs) é que encontre soluções para sairmos da crise económica em que o país está mergulhado e, até agora, apesar do “brutal” aumento da carga fiscal de que a dita classe média tem sido vítima, não se veem grandes resultados.
Os ditos cortes na despesa por que todos esperam tardam a chegar ou a fazer-se notar o seu efeito na resolução da crise económica. Corta-se na saúde, na educação e na previdência social (aceito que também aqui houvesse excessos que devessem ser eliminados), mas onde todos esperam cortes e o Governo anunciou que ia custar (cortes nas rendas às empresas concessionárias de serviços público, extinção de fundações e institutos públicos que nenhuma utilidade têm, entre outras medidas anunciadas) nada ou pouco se faz notar. É muita parra e pouca uva, isso já se entendeu.
O Governo apostou e continua a apostar numa receita que todos já entenderam (até ele, estou certo) que não está e não vai resultar. O único resultado que está à vista e continuará a aumentar é o empobrecimento das pessoas, a rápida diminuição, para não dizer desaparecimento, da classe média, o motor de uma economia.
É tempo de arrepiar caminho, corrigir erros e tomar as decisões certas que têm que ser tomadas e o Governo tarda (para não dizer teme) tomar.
O problema não se resolve pelo lado da receita, mas pelo corte na despesa e, principalmente, nos excessos.
Enquanto isto não acontecer é de esperar que comportamentos como os a que temos assistido continuem a verificar-se.
Ao olhar para estas ocorrências, não vejo tanto um grito de revolta gratuita contra um Governo, mas antes um clamar de um povo faminto que já não tem pão e vê que a mesa de alguns está cheia e quase nem foi tocada.

Vale a pena pensar nisto.




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