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Supérfluo ou necessário?

A economia é uma pobre ciência, os economistas uns pobres sábios e os governados umas pobres vítimas. O protesto quase mundial que se vem verificando prova isto de uma maneira que não deixa margens para dúvidas. Uns economistas apostaram na economia por via do empréstimo sem medida; outros apostam na contenção de gastos a qualquer preço. E onde está a terceira opção?

Paulo Fafe
8 Out 2012

Seja qual for o conceito económico em que nos movamos, a economia define-se por uma palavra: poder de compra. Se as pessoas têm dinheiro, compram; se compram, o vendedor vende; se vende, a produção fabrica. Isto é sinergia em movimento. Como querem que o comprador gaste, se lhe tiram o dinheiro? Como querem que se invista, se não lhe emprestam? Como querem que se compre, se lhe mandam poupar? Há coisas que de tão simples até a gente se espanta como se tornaram tão complexas!
Apareceram os planeamentos estratégicos, os planeamentos nacionais ou prévios, os planos de negócios… é um nunca mais acabar de complexidades, quando, na verdade,  tudo se resume a  ter dinheiro para gastar! A economia resume-se a isto ; sem poder de compra dá-se recessão que, na tradução popular, significa, olhar, mas não comprar, aquilo que na gíria comercial se chama os miranda, isto é,  miram e andam, mas não compram.
Estabelece-se, desta maneira, um ciclo vicioso que devora todas as hipóteses de recuperação económica: não tem dinheiro não compra, não compra porque não tem dinheiro. O Governo não tem dinheiro para distribuir porque cada vez mais arrecada menos. Mas não sei por que se espantam. Então com empresas a fechar, com a procura a diminuir, com o desemprego a aumentar, com as dívidas a aparecerem em hora de pagamento, onde pensavam os arautos da teoria económica de contenção de subsídios e baixos salários, ir buscar as contribuições para o Estado?
 Se perguntarmos a uma dona de casa o que vai fazer com o pouco dinheiro que tem disponível, ela diz logo, vamos ao menos. Mas é isto precisamente o que vamos fazer todos nós, vamos ao essencial, à subsistência, deixando para dias melhores, se os houver, a troca de automóvel, a compra de casa, as férias, as idas ao cinema, as refeições nos restaurantes, as cervejolas nas esplanadas, as roupas da moda, os sapatos novos. Estão de volta os tempos das meias solas e das cuadas. Mas se esta restrição de gastos equilibra as contas da nossa dona de casa, o que vai acontecer ao stand de automóveis, ao vendedor de casas, às cervejarias, aos restaurantes, às esplanadas, às agências de viagens, às lojas comerciais? Ninguém precisa que lhe demos a resposta.
Mas não foram os créditos fáceis e abundantes que nos levaram  ao endividamento pessoal em que estamos e nos garrota? Não foi o crédito excessivo que endividou cada pessoa, cada família e o próprio Estado, ao ponto de necessitar de mendigar a intervenção financeira estrangeira? Então como é? Sem dinheiro há recessão, com ele há bancarrota. Como se diz em latim, in medio  virtus, no meio termo está a virtude, isto é, nem fechar a torneira, nem abri-la de mais. Dizia alguém, falando de economia, “é uma porta de vaivém, abre-se para entrar e para sair”. Se a fecharmos de um lado a economia morre, fica presa em  si mesma. Como é este meio-termo? O meio-termo está entre o supérfluo e o necessário;  se vossa mercê não encontrar em a si mesmo a resposta para o dilema, então é porque o seu conceito de necessário é capaz de ser  igual ao conceito de supérfluo.




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